• Dora Lua

Sob Pressão



Quando se dorme na praça, é normal acordar logo que o azul escuro comece a clarear e as estrelas menores são ofuscadas pelo primeiro clarão que se antecipa ao Sol... Gotinhas de chuva fraca caíam como plumas... Depois o Sol se elevaria intenso, dissipando toda nuvem molhada... Afora a poesia celeste, o segundo e terceiro dias pedalando juntos foi um desastre, e por muito pouco não foram os últimos.


Pegar BR à dois potencializa todos os desafios de compartilhar o dia-a-dia com um outro, pois não existe uma rotina bem definida onde poderíamos deitar nossos encaixes e diferenças. A cada novo dia é preciso acordar onde e como dormir, comer, tomar banho, para onde ir e por quanto tempo ficar, e ainda é necessário desenvolver uma sintonia afinada para adaptar-se ágil e conjuntamente a qualquer novo imprevisto. São tantas idiossincrasias para acomodar que há grandes chances de vivermos frequentes desavenças ao longo do caminho.


Meu choro antecipado de saudade fizera Dennys sentir que a gente tinha algo mais além que um breve caso e que talvez lhe valeria a pena me acompanhar em minha jornada. Afinal, eu não tinha sido a única entre nós dois a pedir um namorado ao Universo. Por minha vez, já estava bastante cansada de interromper e recomeçar tantas aventuras profissionais e amorosas, estava determinada a me provar que eu era capaz de dar continuidade estável tanto a um projeto de vida quanto a um relacionamento.


Eu queria provar que nós era possível. Mas diante da nossa primeira grande provação - o desespero de Psiu - só consegui mostrar o quanto sou capaz de ficar histérica ao ser submetida à fortes pressões emocionais. Todo percurso de Tacaimbó à Arcoverde foi uma sucessão de brigas, com direito a muito chororô, despedidas, retornos e acordos de paz.


Entre as várias razões dos conflitos daqueles dias, só consigo recordar, com mais clareza, do impasse sobre a acomodação da minha gata. Dennys estava tentando entrar na vibe de curtir a estrada, buscando fazer piadas e sorrir, mas sempre que cruzávamos as bicicletas, meu rosto angustiado morgava seu sorriso. Minha gata sofria e a cada miado, somava-se alguns quilos de culpa em minha consciência.


O boy ofereceu uma "solução" péssima: tirá-la da caixinha apropriada e colocá-la na cestinha da bicicleta dele. Ele acreditava que a caixa era fechada demais e a deixava com uma sensação claustrofóbica. Eu argumentava o exato oposto: estar dentro da caixa era o máximo de conforto que ela poderia ter naquela situação, pois felinos são animais que não gostam de se sentir expostos em ambientes estranhos, eles sempre vão procurar estar no ponto onde mais partes do seu corpo estejam escondidas enquanto possam ter uma visão panorâmica de todo o arredor. Além do mais, a caixinha vermelha era um espaço já bem conhecido seu, com o seu cheiro, e onde ela se percebia, se não livre, ao menos protegida.


Dennys obstinado a provar que entendia mais de animais do que eu - quando na verdade só havia sido pai de cães. Eu, resoluta a não ceder nem sequer a uma experiência, pois tinha certeza que a assustaria ainda mais. Na mente dele, tudo o que ela precisava era colocar os cabelos ao vento como fazem os cachorros com a cabeça para fora da janela em viagens de carro.


Ninguém cedeu na briga, e Dennys chorou muito, bichinho... Dizendo que eu era "muy buena cuando eres buena, pero eres muy mala cuando eres mala".


Paramos numa construção abandonada para acalmar os ânimos e deixar Psiu caminhar um pouco. Alí a gata demonstrou que 3 anos juntas foi mais do que o suficiente para que eu a conhecesse melhor que ninguém, pois mesmo com a portinha da caixa aberta, ela não saía, e se a tirássemos à força, ela corria alucinada de volta pra dentro.


À noite, no trecho da BR que passava pela cidade de Pesqueira, um mocó incomum pra mim. Quando procuro um lugar pra dormir na rua, eu sempre tenho duas opções opostas em mente: ou um ponto muito exposto com bastante gente em volta me vendo facilmente (como nos grandes postos de gasolina 24 hrs, por exemplo), ou alguma intoca super escondida, onde nem mesmo quem passasse ao lado seria capaz de me perceber dormindo alí. Mas Dennys escolheu um mocó onde, caso estivesse sozinha, me seria impossível pregar o olho: uma calçada larga à meia luz de um poste, onde não havia nada aberto por perto, mas por onde poderia passar qualquer pessoa durante a madrugada.




No outro dia, outras brigas por não-sei-o-quê, e quem chorou dessa vez, desabada às margens da pista sob o Sol sem filtros do sertão, fui eu.


Não sei que milagre do cupido nos fez chegar juntos à Arcoverde e curtir uma noite tranquila numa pousada do centro da cidade. Queimados de Sol e ressacados de lágrimas, chegamos.

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