• Dora Lua

Show de Segunda

Atualizado: 1 de Dez de 2019


Eu, fotografada por Dennys.

Há dias batia no peito forte ânsia de finalmente pedalar pelas rodovias. Tanto eu, quanto Dennys, nos sentíamos na urgência de viajar o mais rápido possível. Ele, porque está voltando pra casa após quase três anos sem ver os pais; eu, porque já vi meus pais demais nos últimos três anos, e tudo o que eu quero agora é me sentir distante de qualquer coisa que me cheire a quem fui ao longo dos meus primeiros vinte e poucos anos de vida. Para quem ia passar apenas uma semana na cidade, totalizamos um mês inteiro de Caruaru. Tivemos tempo de fazer amigos, conhecer o nome dos bairros, poder dar informações às pessoas de fora, ir várias vezes ao mesmo boteco, decorar cores de muitos prédios e morros em volta e ficar de saco cheio.


Era muito cedo de manhã, eu tentava abrir a porta da casa de Carina para pegar alguns objetos guardados para este dia da partida. Carina é a nossa querida ex-anfitriã do couchsurfing em Caruaru, onde ficamos tão à vontade ao ponto de, certa vez, termos aproveitado sua saída ao trabalho para ficarmos peladões no quintal para tomar banho de cuia direto da caixa d'água, e só depois descobrir que sua mãe, que também é sua vizinha, viu tudo pela janela. Ai-meu-Deus-que-vergonha com duração de apenas trinta segundos. Porque demorei demais batalhando ruidosamente na fechadura, Carina acordou e foi destrancar por dentro. Ao abrir da porta, pude perceber que a chave em suas mãos era bem menor que a que eu segurava. Ai não, são as chaves da casa de Lula, de onde havíamos partido há treze quilômetros atrás.


Gostaríamos de ter saído bem cedo, mas ter que voltar ao Alto do Moura só pra devolver uma chave, nos atrasou várias horas em relação ao planejado. Finalmente, quando vimos mochilas e alforjes já bem presos às bikes, Psiu acomodada em sua caixinha, o Sol a pino no céu, nenhum objeto a entregar, Dennys brilhou seu sorriso mais lindo e convidou:

- Vamos pra BR?


Dennys, fotografado por mim.

Uma estrada secundária sem acostamento e raríssimo movimento nos conduziu à BR 232. O grande dia do meu retorno ao asfalto sem fim, ao constante rock'n roll dos caminhões rápidos e pesados ao pé do ouvido, arrastando atrás de si pequenas ventanias ameaçadoras contra o equilíbrio sobre duas rodas, ao transe mental provocado por horas consecutivas de pedalada, ao cansaço gostosamente deitado sobre papelões nos pátios dos postos de gasolinas dos meios-dos-nadas-cheios-de-tudo.


Gratificante retorno pra mim, desesperadora inauguração para Psiu, que desde as primeiras horas já deixou bem claro que não devia estar alí. No fundo, eu sempre soube, mas o que eu poderia ter feito? Deixá-la nas ruas de Recife? Ou com algum desconhecido de ambas, cuja confiança eu não teria tempo de provar? (Mais tarde, explicarei a história da nossa relação, por que a adotei mesmo tendo uma vida tão inconstante para um animal doméstico e por que seria improvável tê-la junto a mim para sempre). Só havia uma pessoa confiável, já bem conhecida pela gata e disposta a adotá-la, no entanto ela vivia a mais de trezentos quilômetros de Recife à sudoeste, exatamente para onde meu guidom girava. Essa distância seria o limite da nossa tentativa de adaptar uma gata adulta à BR ou o seu destino final na vida, definitiva morada sem sua segunda mãe - a primeira foi aquela que pariu, né.


Confesso que meu apego me tornara cega, pois só mais de ano passado daqueles primeiros dias da viagem, consigo perceber quão obviamente absurda era tal idéia. A gata que sempre fora a mais silenciosa do mundo - a primeira vez que ouvi seu fraco miado, ela já tinha quase um ano, e só voltaria a miar outras vezes em raras situações de grave urgência - mais conectada às suas necessidades de conforto, sensação de segurança e estabilidade do que à nossa profunda relação, protestaria de pronto, angustiando-me pelo suave miado quase constante ao longo de todo o percurso.

Menos de quarenta quilômetros após a partida chegamos a um trevo marcado pelos letreiros que anunciam o município de Tacaimbó, a Terra do Maxixe, título proclamado pelo próprio povo e gravado em grandes letras garrafais na placa de boas vindas, o que me fez recordar uma das minhas receitas de família favoritas, a maxixada com leite de côco (na verdade, como típica família do litoral pernambucano, colocamos leite de côco em praticamente tudo). A memória gustativa me fez salivar imediatamente e evidenciar o vazio no estômago. A cidade estava perto o suficiente da BR para nos convencer a dobrar no trevo e ir procurar um lugar pra comer e pra dormir em Tacaimbó.


O município inteiro abarca apenas pouco mais de dez mil habitantes, cinco vezes menos que o bairro onde eu cresci. O centro da cidade era quase tão pequeno quanto um povoado de um distrito rural, onde o tempo costuma parecer manter-se meio suspenso no ar, principalmente em finais de tarde como os daquela segunda-feira ordinária, permitindo circular mais oxigênio, apagando da nossa lembrança a informação de que nem todo o mundo está em paz, pois alí a vida coletiva é tão serena quanto a morte, e tudo parece ser como sempre foi e sempre será.


Durante as últimas duas horas de claridade, no meio de uma pracinha, ceamos uma panela de comida que ganháramos antes de sair da 232 de um restaurante recém-encerrado-expediente em troca de alguns dos meus ímãs. De bucho cheio, deitei num banco de concreto pra deixar o corpo descansar os músculos da pedalada enquanto direcionava toda energia que me restava para a digestão. Psiu arregalava os olhos por trás das folhagens da moita onde se escondia, tentando entender que novo mundo era aquele, calculando a distância dos cães e outros gatos de rua, as rotas possíveis de fuga, a proximidade comigo e quais as chances de comer, mijar e cagar em paz. Dennys saiu na missão de achar o mocó.

A alguns quarteirões, uma praça um pouco maior, com parquinho infantil, quadra poliesportiva, e uma área destinada ao projeto de Academia da Cidade, em cujo centro havia uma casinha que talvez funcionasse como sala administrativa, depósito, banheiro ou sei lá... A única coisa que nos interessava eram o alpendre e a calçada ladrilhada que a rodeava, ponto perfeito para montar a barraca que havíamos ganhado do Raul. Normalmente não a aceitaríamos, uma vez que nem eu nem Dennys gostamos de viajar com barraca. Ele evita qualquer peso desnecessário, eu prefiro dormir em rede, e nós dois sabemos que qualquer papelão já é cama suficiente, como fora no primeiro dia viajando juntos. No entanto, estando em casal, já são outros quinhentos... pois obviamente, a exposição da rua limita o nível do chumbrego a que podemos chegar, mas dentro de uma barraca, mô fi, vamos ao infinito e além.


Haviam muitas crianças brincando espalhadas por toda a praça, mas à visão desses dois estranhos tão malacabados quanto suas bicicletas pesadas de bagagem, montando uma barraca no meio da praça, acabou imediatamente com os jogos rotineiros, e mal disfarçadamente, os pirráia foram se chegando em silêncio enquanto seus olhinhos gritavam interrogações. Eles nos fitavam mantendo alguns metros de distância, enquanto os adultos, igualmente curiosos porém mais cabreiros, se colocavam a mais metros atrás dos pequenos.


Certamente, Dennys era a figura mais estranha: um homem musculoso demais para os padrões locais, com várias tatuagens - trivialidade em grandes cidades, mas excepcionalidade em Tacaimbó -, fisionomia talvez jamais vista por estas bandas com seus traços faciais duros e quadrados dos indígenas do norte do Peru, além do seu comportamento mudo e sisudo, sabido por mim ser apenas fruto do cansaço do dia, mas que claramente intimidava até os cabra mais macho do lugar. Creio que ele tinha alguma consciência da impressão que causava nos locais, mas não tentaria alterar seu astral, uma vez que até era bastante beneficiado pela distância que provocava, pois estava esgotado demais para interações sociais. Apenas se enfiou na barraca, fechou o zíper e se deitou imóvel lá dentro, assim aumentando ainda mais a áurea de mistério ao seu redor.


Inicialmente, também não fiz muita questão de ser simpática, agi como se não tivesse percebendo as crianças, ou como se não me importasse. Sentei-me numa mesinha da praça, logo em frente à barraca, e comecei a dispor as fotos-ímãs sobre ela, contando e reorganizando o mangueador. Então, vez ou outra, comecei a lançar um olhar límpido e confiante, mas sem mover os lábios e as maçãs do rosto, ao encontro dos seus olhares tímidos e curiosos. A cada entreolhada, minha face se anuviava alguns milímetros e os menorezinhos de todos davam alguns passos curtos à frente, até que finalmente abri um sorrisinho fofo e elas se chegaram de uma vez, fazendo sombra sobre as fotos que eu tentava analisar.


- O que tu tá fazendo? - O que é isso? - O que é aquilo?


Eu contei sobre nossa viagem, sobre o trabalho com as fotos, e ainda lhes apresentei de longe à Psiu, que estaria assustada caso se aproximassem mais. Em algum momento alguém apontou interrogativamente as claves na cestinha da bike de Dennys. Queriam saber se eu era do circo, se sabia jogar aquelas coisas.

- Não, não são minhas. Não sei fazer. São dele, ele que é o malabarista, mas tá muito cansado - falei, apontando para a barraca imóvel.

Minha resposta trouxe de volta o silêncio. As crianças olharam pra "ele". Passaram-se alguns segundos de receio e dúvida no ar, até que eu quebrei o gelo ao emendar:

- Mas se vocês forem lá encher o saco dele bem muito, aposto que ele faz um showzinho pra vocês - disse, sorrindo maliciosamente, sabendo que ele nos ouvia.

Minha fala dissipou o medo da galerinha instantaneamente. Mal terminei a frase e elas já estavam sacudindo divertida e insuportavelmente a barraca do coitado, gritando:

- FAZ! FAZ! FAZ! FAZ! FAZ!


Obviamente, uma vez que eu já tinha detonado a sua paz, sua única escolha era sair. Meio puto, mas sorrindo, telepaticamente me mandando um "la concha de tu madre".

- Êêêêêêêêêêêêêêêê - os pirráia comemoraram, e os adultos gargalharam.


Foi a pior apresentação que eu já vi Dennys fazer. Derrubou as claves várias vezes. Não por culpa do cansaço, muito menos por falta de habilidade. O tabacudo resolveu se apresentar bem diante de dois refletores grandes, potentes e fluorescentes, fixos ao chão num ângulo precisamente direcionado à sua cara. Iluminação perfeita para lhe destacar como o artista, mas ele não havia treinado malabares às cegas, e o excesso de luz encandeou sua visão do começo ao fim. Porém, numa cidadezinha onde quase nunca se vê algo de estrangeiro assim ao vivo, ele se fez o acontecimento da noite, deixando os menininhos de boca aberta e nos colocando de vez nas graças daquele povo.


Depois da apresentaçãozinha, as crianças pululavam ao redor de Dennys, e os adultos se aproximaram para conversar e oferecer apoio. Chamaram algum representante da prefeitura, que se apresentou de uma maneira quase formal, e mandou o senhorzinho que cuida da praça abrir o cadeado de uma área parte gradeada, parte murada, que também ficava junto à casinha, mas no lado oposto, para que ficássemos mais protegidos da possível chuva que viria de madrugada. Uma das mães presentes e dona da padaria defronte à praça, nos trouxe uma sacola com pães, bolos, iogurte, e um pedação de rolo de mortadela, que durariam para o café-da-manhã. E apesar de o levantar do boné perguntando "quierem colaborar?" do Dennys ao final da apresentação ter sido apenas uma piada, as crianças foram e voltaram correndo de suas casas trazendo moedinhas para dar pra Dennys e notas de dois reais para comprar meus ímãs, não necessariamente porque queriam nos ajudar, afinal não demonstramos necessitar da ajuda de ninguém, mas porque pagar por nossa arte fazia parte da diversão delas, era uma alegria a mais. Claro que, no final das contas, acabei dando ímãs para as crianças que não tinham dinheiro também.

A noite avançou, a praça esvaziou, ficamos só nós dois e Psiu, que fugiu. Batalhamos algumas horas para tentar tirá-la de dentro de uma casa vazia e trancada. Ela buscava ambientes domésticos porque já não era mais adaptada à rua. Em fim, liberto, Dennys desligou ao meu lado, enquanto eu ainda me mantive desperta acalentando minha gatinha, minha filhinha agoniada, que ao final se tranquilizou um pouco, depois de ter transferido sua angústia a mim, já começando a realizar em minha mente que, possivelmente, ou provavelmente, não poderíamos mais continuar juntas por muito tempo.

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