• Dora Lua

Repouso

Atualizado: 5 de Jul de 2019


Fotografia: Dennys Gamboa


O mocó é um animal fofinho endêmico da caatinga, parecido com uma capivara em miniatura, geralmente pesando apenas um quilograma. Os mocós se acoitam durante o dia em pequenas tocas naturais dos rochedos, e têm excepcionais habilidades de perceber predadores há grande distância e se esconder muito tempo antes de o caçador ter alguma chance de avistá-lo.

Quando vivemos pelas BRs, quase sempre sem grana para pagar hospedagem, buscamos dormir como o mocó, se acoitando no lugar mais confortável e seguro que encontrarmos na rua. 'Dormir de mocó' é uma expressão comum aos malucos de estrada. A depender do contexto da frase, o mocó pode significar o lugar onde o viajeiro dorme (seja uma calçada exposta ou algum lugar realmente bem escondido, uma casa abandonada ou até mesmo uma casa normal alugada), o modo como se dorme (na rua), ou um esconderijo para guardar os pertences.


Após sair de casa, o plano seria dormirmos juntos na Rodoviária de Recife. De manhãzinha, ele seguiria de ônibus e eu iria pedalando os 150 quilômetros até Caruaru, onde nos encontraríamos. No entanto, poucos dias antes da viagem, lesionei o cóccix. Repouso prolongado é o único remédio possível. Alocamos tudo numa lotação clandestina e chegamos em Caruaru juntos, às duas horas da madrugada.


Dormimos de mocó na saída da Rodoviária de Caruaru. Foi o primeiro teste de Psiu dormindo na rua. Ela se saiu muito bem. Não se distanciou mais do que cinquenta metros de nós, e sempre voltava bem rápido. E após uma rápida reconhecida no terreno, enfiou-se debaixo do meu saco de dormir, mantendo-se deitadinha nas minhas pernas até o amanhecer do dia seguinte.



Os dias em Caruaru tem sio de repouso quase total. À exceção da primeira noite na rua e da segunda noite numa pousada barata no centro, onde escondemos Psiu envolvendo sua caixinha numa canga pra poder passar pela recepção, todos os dias utilizamos couchsurfing, um site que funciona como rede social global para promover encontros entre viajantes e hóspedes para hospedagem solidária. Fiquei em casa a maior parte do tempo, aproveitando o conforto de casas com cama, cozinha, privacidade e amizade para me recuperar. Caminhei pela cidade algumas vezes, mas evitei pedalar para não forçar a lesão.


Deus tem me dado tranquilidade para esperar. Relaxar nas possibilidades do momento. Não há pressa. Tenho o mundo inteiro pela frente. Voltar não é uma opção. As leis do tempo que dominam. E esse tempo, que sempre achei que seria do pique da instiga do começo, pede um bocado de calma.

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