• Dora Lua

Raiz x Nutella: uma competição insana

Atualizado: 2 de Ago de 2019

Você já viu alguém apostar uma corrida de 100 metros rasos contra alguém que tá jogando paciência?



Quando eu comecei a viajar sozinha, eu ainda não sabia produzir nada que pudesse ter algum valor monetário e também não conhecia as várias ferramentas que permitem aos pobres viajar economizando muito e até mesmo obter hospedagem, alimentação, transporte e passeios sem precisar pagar em dinheiro.


Eu me aproveitava de oportunidades pontuais que me transportassem aonde eu queria ir e quase não pensava no depois. Não levava dinheiro que não tinha mas carregava uma bolsa pesada, com pouca roupa mas muita comida. Era guiada por uma confiança quase ingênua de que eu iria saber me virar. E saberia.


Eu não tinha sapato (só andava de chinelo), nem mochila cargueira, nem barraca, nem lanterna, nem casaco, nem saco de dormir, nem isolante térmico, nem celular, nem câmera, nem planos B. Eu ia com o que tinha, mas como sempre fui lisa, estava acostumada a viver e me divertir com pouco.


Grande parte das pessoas que vivem hoje na BR, começaram e continuaram do mesmo jeito que eu. Não porque fossem como São Francisco de Assis, mas porque não havia outra alternativa. Se não se permitissem sair com tão pouco conforto e segurança, simplesmente não conseguiriam sair nunca. (sim, eu sei que também existem os são-franciscos-de-assises, em muitas fases da minha vida eu também fui uma, mas esse texto não é sobre exceções).


Ser pobre e estar sozinho na rua há milhares de quilômetros de algum conhecido é estar tão vulnerável à marginalização social quanto qualquer outro morador de rua. Para defender-se mentalmente da vergonha que exclui, deprime e enfraquece o sujeito, é quase uma necessidade vital, substituí-la por orgulho. O orgulho é um escudo poderoso contra a humilhação.


Quando não se pode ter, sentir orgulho de saber viver sem ter é um alento gostoso ao espírito. Mas ainda assim, quando a mente está muito fraca, só um escudo não é suficiente, ainda é necessário atacar as fragilidades de quem tem.


Não estou querendo apontar de qual lado começou o conflito. Todos nós conhecemos o mochileiro ostentação que precisa exibir todos os seus equipamentos de última geração e negar qualquer possibilidade de viajar sem tê-los. Mas seja você um viajante bem ou mal equipado, se você entra nessa disputa de egos, seja para atacar ou para se defender, o maior vilão e a maior vítima dessa guerra é você mesmo. Pois você está perdendo a oportunidade de viver a sua experiência em profundidade e plena presença.


É preciso considerar que existem infinitas motivações diferentes para cair na estrada. Não faz sentido comparar os meios quando as buscas são distintas.


Todo esse texto é, na verdade, uma introdução necessária à minha história na BR. Não quero parecer uma idiota ao falar da bicicleta-quase-ferro-velho de 70 reais com a qual cicloviajei pela primeira vez. Contar sobre isso pode ser muito importante para motivar outras pessoas que acham que não têm condições de viajar e descobrir as maravilhas do mundo só porque não tem dinheiro. Se colocarmos em perspectiva, o dinheiro é uma invenção muito recente na história, no entanto o nomadismo é tão antigo quanto a humanidade. Explorar o Universo é uma aspiração natural da espécie humana. Todos merecem fazê-lo.


Também reconheço que é muito legal quando as pessoas compartilham da alegria de adquirir algum produto ou serviço que vai ajudá-la a viajar com mais conforto e segurança, não há nada demais em comemorar conquistas materiais publicamente. Até porque pode ajudar futuros consumidores a escolher melhor seus equipamentos.


"Raízes" e "nutellas" (que expressões ridículas e que dicotomia burra, meu Deus!) podem compartilhar experiências e aprender mutualmente, mas é preciso exercitar a maturidade pra não correr o risco de ficar se sentindo pior ou melhor que o outro por causa disso.


Também não faz sentido comparar quantos quilômetros você percorreu e por quanto tempo com viajantes que não estão preocupados com recordes. Se você gosta de competir não tem problema, só não me faça a estupidez de disputar contra alguém que nem se propôs a entrar no seu jogo. Agindo assim você só estará contribuindo para fortalecer coletivamente um ambiente tóxico à nossa saúde mental.


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