• Dora Lua

Primeira Vez

Atualizado: 9 de Jul de 2019


Fotografia: Nereluane Muliterno

O primeiro gole de coragem sob o peso da mochila desce como guaraná gelado em goela seca de sede de anos de deserto. Quase todo viajante tem a memória do frio na barriga da primeira vez, grito de libertação da alma arrepiando a carcaça resistente de medo.


Sobre esse nervosismo da partida iniciante, eu só posso especular, pois de fato, nunca senti. O processo que me levou à vida nômade começou tão cedo e foi tão gradual que sempre tive dificuldades de responder à pergunta 'Quando foi que começaste a viajar assim?'


Olhando para trás, percebo que quando entrei em um avião a Brasília em dezembro de 2011, eu só estava consciente de que era a minha estréia no céu, no entanto não me dava conta que era a primeira vez que eu viajava desacompanhada. Eu estava habituada a me aventurar fora de casa há bastante tempo, aquela viagem seria só mais uma.


Eu sei que viagens em família não contam como resposta àquela pergunta, mas a verdade é que a primeira vez que fui jogada ao mundo com pouca grana, nenhum plano e total confiança nas bênçãos desconhecidas do destino, eu tinha cerca de 10 anos e apenas acompanhava um dos alegres impulsos da minha mãe.


Em meio a um engarrafamento na zona norte do Recife, panfleteiros entregavam pequenos folhetos dobrados em várias partes como são os encartes de CD. À despeito do abafado do carro parado envolto em poluição sob Sol castigante, me animei em descobrir que na terceira página do cartãozinho tinha uma raspadinha com possibilidade de prêmio. Esfreguei a moeda no papel, que revelava a estranha frase 'vale um final de semana'.


O folheto era publicidade de uma rede de hotéis. Apesar de pequeno, trazia um texto enorme escrito a letras miúdas, mas tudo o que a gente entendeu a princípio - o que, obviamente, era a intenção do marketing malandro - foi que fomos sorteadas com duas diárias em um hotel chique, a escolher entre Recife ou Natal.


Comemoramos como otárias.


Mainha é do tipo de pessoa que resolve tudo pra ontem. Mesmo que meio atrapalhada, sempre deu conta da rotina atarefada de muitos empregos, dois filhos em guerra constante e o típico marido que mais atrapalha do que ajuda, ao mesmo tempo em que vivia uma vida cheia de artes, aventurinhas, boemias, diversões. Ela é a única mãe que eu conheço a declarar categoricamente, "Nunca deixei de fazer nada que quis fazer por causa de filho". Afirmação de arregalar os olhos dos ouvintes mais íntimos, considerando que Dona Nerê é uma aquariana querendo tudo, sempre desejando mais e mais.


Fomos ao endereço do escritório indicado no papelzinho do nosso "prêmio". Lá encontramos funcionários visivelmente constrangidos, relatando as inúmeras taxas extras a serem pagas pelo direito às diárias "grátis". Pulamos fora do anzol, mas mainha continuou com o gostinho da isca na boca. Ninguém gosta de ser enganado, mas nestes casos, mainha prefere sentir raiva em vez de frustração, e movida pelo orgulho, muitas vezes, em diversas situações, proferiu, 'Eu faço/Eu vou nem que seja só de raiva!'


Devo acrescentar que minha mãe era (agora está aposentada) professora de Educação Física numa escola rural da rede estadual de ensino, implicando que o seu salário jamais poderia prover um estilo de vida para além de uma família de classe média baixa, na maioria das vezes tendo o suficiente para a subsistência mas não admitindo muitos gastos supérfluos. Não sei quantas vezes, durante minha infância e adolescência, vi a luz, a água e o telefone da minha casa sendo cortados por falta de pagamento, quase chegamos a ser despejadas do apartamento onde eu cresci, nunca cheguei a ter todo o material escolar exigido pelo colégio onde estudava e se nunca passei fome, foi porque mainha era a rainha do fiado e nossa rede familiar era forte.


Sendo assim, como Dona Nerê poderia financiar uma viagem de férias à Natal? Para ela, o como ir era menos determinante que a vontade de ir. O pirangueiro e medroso do meu pai não seria cúmplice nessa loucura. O viciado em videogame do meu irmão, tampouco. Sobrou nós duas, graças à Deus. Então que nas férias de julho, simplesmente embarcamos em um ônibus ao Rio Grande do Norte.


Guardo com amor e júbilo a memória de um momento particularmente penoso para aquela menininha: já em Natal, numa rua ladeirada de paralelepípedos, o Sol descia rápido no horizonte de fim de tarde; minha mãe de shortinho jeans como eu, andava muito rápido à minha frente sem olhar pra trás, sustentando a sua eterna postura altiva de bailarina; obviamente ela carregava uma bolsa muito maior do que a minha, mas a mochila que eu abraçava contra o peito estava suficientemente pesada para esgotar os bracinhos de uma criança que estava há horas caminhando atrás da mãe obcecada em encontrar uma pousada que aceitasse 25 reais pela diária do quarto de casal (fomos à dezenas naquele dia, e as mais baratas custavam 35 reais); eu sentia fome e cansaço como nunca sentira igual, mas o poder emanado pela determinação da minha mãe era muito contagiante e eu sempre queria estar à altura dela. Me inunda um enorme carinho pela própria criança que fui, quando lembro que consegui segurar a barra sem reclamar até o final do dia. E sim, finalmente mainha conseguiu negociar a diária de 25 reais e, dias depois, na hora de acertar a conta, ainda conseguiria pechinchar um super desconto no valor total, resultando em ao menos uma diária grátis.


Porque já se passaram mais de 15 anos, é difícil recordar quantos dias passamos em Natal ou a ordem certa de acontecimentos. Mas bem me lembro dos perrengues para chegar aos melhores lugares com o menor custo possível, das feirinhas artesanais com todo tipo de objeto em formato de caju, das pessoas que moravam na pousada e rapidamente nos tornamos amigos, de tomar banho na piscininha meio abandonada nos fundos do hotel, de momentos de chuva e de sol, da televisãozinha do quarto conectada à Globo reportando diariamente, em rede local e nacional, as notícias sobre o naufrágio do barco de dois pescadores potiguaras que surpreendentemente sobreviveram ao nadar muitos quilômetros até a praia, das dunas de Jenipabu, do esquibunda e do passeio de dromedário que graças à falta de outros turistas e à lábia da minha mãe saiu praticamente de graça.


Mas há um dia particularmente marcante.


Numa tarde, fomos à praia de Ponta Negra que ficava próxima aonde estávamos hospedadas.

- Mainha, vamo andando até aquele morro? - me referia ao Morro do Careca, um dos principais cartões postais da cidade, que distava cerca de três quilômetros do ponto de onde o avistamos.

- Vamo! - respondeu, minha mãe, já toda alegrinha com o desafio proposto.

Não tínhamos muita pressa, cada uma seguia em um ritmo diferente e de vez em quando, parávamos um pouco. Finalmente quando chegamos ao pé do morro, já havia escurecido. Sei que hoje em dia, há várias construções por alí, mas naquela época era tudo mato. Em meio ao deserto e escuridão do matagal, havia apenas as luzinhas de um pequeno bar de um só funcionário - provavelmente, o dono. Minha mãe sentou na única mesa posta na areia e pediu uma cerveja. Eu fui tomar banho no mar enegrecido pela noite.


A atmosfera começou a ficar mágica com o nascer da Lua cheia por trás do morro. Eu não conseguia acreditar que a Lua pudesse se mostrar tão grande quanto na novela Porto dos Milagres. Sempre pensei que era mentirinha de televisão. Além de grandona, era de um alaranjado brilhante e suas crateras estavam nítidas como nunca. Eu tinha a sensação de que se levantasse a mão poderia encostá-la. Fiquei paralisada, de boca aberta, e por muitos anos, essa lua ainda apareceria várias vezes em meus sonhos fantásticos.


Tudo à minha volta era silêncio e beleza natural em brilho e sombras. E da negritude do mar, de repente apareceram ao meu lado, três homens empurrando dois barquinhos arrastando uma grande rede de pesca com pequenos peixinhos e camarões presos pelas linhas. Após recolher barcos, rede e pescados e me aguentarem fazendo mil perguntas sobre o seu trabalho e metendo a mão em tudo na intenção de ajudar e aprender (e mordiscar um camarão cru só pra saber qual era o seu sabor original), os homens sentaram cansados à mesa da minha mãe para tomar uma e relaxar.


Existia um motivo a mais para seus ombros estarem tão caídos, além do desgaste do trabalho. Uma das notícias da semana no país se referia à dois de seus colegas de profissão e de vida. O pescador galego começou a nos contar sobre a visita que fez aos amigos que recém haviam saído da UTI. Ambos foram obrigados a nadar por muitas horas (eu era muito nova e não consigo lembrar os detalhes numéricos do caso, mas sei que foi uma distância suficientemente absurda para chocar o Willian Bonner no Jornal Nacional) para salvar suas vidas.


Todos nós sabíamos que os pescadores foram resgatados em graus gravíssimos de esgotamento físico, insolação e desidratação, e apesar de escaparem da morte por pouco, agora se encontravam fora de perigo no hospital. Mas a televisão nunca pôde saber do quão mais maravilhosa era aquela história. O nosso mais novo amigo pescador nos contou emocionado e em voz baixa sem nos olhar diretamente, como que recontando para si mesmo...


Enquanto o barco afundava em alto mar, os dois amigos já sabiam que, devido à distância do continente, as suas chances de sobrevivência eram improváveis, mas combinaram que lutariam pela própria vida até o fim. Antes que tudo fosse ao fundo do oceano, eles agarraram uma grande corda e firmemente amarraram uma extremidade dela numa perna de um e outra ponta numa perna do outro. O acordo era que nenhum dos dois sobreviveria àquele acidente sem o outro. Ou viveriam os dois, ou morreriam os dois.


Após muito tempo nadando em sal, queimados pelo Sol, extremamente exaustos, famintos e sedentos, o pescador mais adiantado se deu conta que já há algum tempo a sensação da corda em seu tornozelo estava diferente. Olhou para trás e viu o outro pescador parado muito ao longe, para além do alcance da corda, lhe acenando que seguisse em frente. Mas em vez de seguir, ele gastou preciosas reservas de energia para nadar a distância de volta ao encontro do seu amigo.


Aquele que silenciosamente soltara a corda lhe pediu para continuar sem ele pois já não tinha mais forças suficientes para lutar, e se o amigo era capaz de sobreviver, então merecia viver. No entanto, aquele que ia a frente, decidiu obedecer ao pacto inicial, e deixando a outra ponta da corda sucumbir também, afirmou que ficaria ao seu lado e esperariam juntos pelo mesmo destino.


O pescador mais esgotado que já houvera aceitado a própria morte sentiu que o peso da culpa pela morte do companheiro era mais intensa que a exaustão do seu corpo, e impelido pela ânsia de salvar a vida do amigo, decidiu que seria capaz de salvar a própria vida. Nadaram lado a lado até o final e sobreviveram juntos.


O pescador que nos contava a história chorando, permaneceu com o olhar distante quando terminou. Os silêncios que se seguiram bateram com força em meu peito e arrepiou todo o meu corpo. Naquele momento eu não me sentia criança. Um homem adulto, desconhecido e aparentemente embrutecido pela vida, como aparentam todos os trabalhadores braçais, confiava me expor suas lágrimas sem nem pensar. Poucas coisas me marcariam tão fortemente como aquela história e a circunstância na qual eu a ouvi. Uma notícia de proporção nacional e eu alí, naquele ambiente estranho onde eu sabia que muitos pais não confiariam estar, tendo a rara oportunidade de conhecer a história em maior profundidade e descobri-la muito mais incrível do que se podia imaginar. Me sentia tão especial quanto a própria Lua cheia brilhando sobre nós.


É preciso que haja algum forte apelo emocional para que algo fique tão bem escrito na nossa memória de longo prazo. Esta noite foi uma das experiências mais importantes para a formação da minha personalidade, dos meus valores e das lentes através das quais enxergo o mundo.


Minha mãe, que constantemente era criticada por rechear minha sobremesa com excesso de liberdade, muitas vezes me permitiu saborear o prazer das inúmeras surpresas que são entregues pelas mãos do desconhecido. Por ter sido criada com rédea leve me tornei viciada em cavalgar. E por descobrir que não há nada mais gostoso do que viver sem medos, sento sobre o lombo da vida e deixo ela correr livre, mesmo que não haja rédeas, nem sela, só quente pêlo nu e mais nada.

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