• Dora Lua

Por que?

Atualizado: 22 de Jun de 2019

As melhores coisas que fazemos na vida podem até ser racionalizadas retrospectivamente, mas quando estamos na iminência de fazê-las, no fundo do fundo está simples a resposta: porque sim.

Ilustração: Vitor Ribeiro de Souza

Ninguém precisa de uma história dramática por trás do seu desejo de viver na estrada. Os sonhos estão por aí, flutuando no ar, à espera de mentes que lhes sonhem, espíritos que lhes realizem e corpos que lhes aguentem.


O sonho de dar a volta ao mundo me pegou ao final de uma transa. Estava de quatro na madrugada sobre a ponte do Pina que liga a zona sul ao centro do Recife. Havia o rio abaixo de nós, o mar mais adiante, as luzes dos postes, a cidade inteira em silêncio, todo o tempo do mundo, nenhum compromisso a cumprir, nenhuma data marcada, nenhuma dívida a pagar, nenhuma pessoa a quem eu devesse qualquer satisfação sobre qualquer coisa.


O sonho se sugeriu à minha mente que prontamente lhe respondeu decidida, apresentando-lhe o meu espírito livre e bem experimentado e o meu corpo jovem, saudável e suficientemente calejado. Afinal já se vão bem uns dez anos desde o abandono da escola e mais ou menos seis anos de vida nômade, errante.


Um mês depois estava partindo da kitnet alugada em Brasília Teimosa, uma comunidade de tradição pesqueira na capital de Pernambuco. Pagava trezentos e cinquenta reais por um quarto e sala sem número e sem janela escondido atrás de um bar entre becos, a poucos minutos de bicicleta ou de barco do centro da cidade e a cinquenta metros do mar mais gostoso para se banhar sob o nascer do Sol. Pois no Recife, a corrente marítima morninha fluindo do norte ao sul encontra um litoral protegido por arrecifes que quebram as ondas antecipadamente, transformando-as em piscinas naturais durante a maré baixa.


Eu vivia feliz, vendendo a melhor salada de fruta da cidade na minha pesada bicicleta de carga. Respirando sal o dia inteiro, por morar e trabalhar na praia.


Feliz mais ou menos.


O desgaste físico era imenso. Eram tantos quilos de frutas para comprar todos os dias, que eram necessárias duas ou três viagens ao mercado, mesmo estando de bicicleta. Eu levava cerca de três horas diárias para preparar a salada, resultando em tríceps doloridos. Garanto aos leitores que cortar frutas é tão eficiente quanto levantar halteres. Pedalava mais de vinte quilômetros por dia carregando não sei quantos litros de salada e toda a parafernália utilizada para preparar cada copinho na hora, com leite condensado, amendoim, leite em pó e granola, tudo ao gosto do cliente, percorrendo toda a orla das praias de Boa Viagem e Piedade:

- Salada de frutaaaa! Saaaalaaadaaaa! - esgoelava-me tentando chamar a atenção de clientes enquanto tentava escapar da fiscalização que patrulha o calçadão da orla cuja principal função é dificultar a vida dos ambulantes.

Além de emagrecer muitos quilos graças ao esforço físico e à falta de condições financeiras de me alimentar adequadamente, eu ainda desenvolvi uma fenda e alguns nódulos nas cordas vocais por tanto gritar.


Eu já trabalhava como ambulante sacrificada há um ano e meio, no entanto, não enxergava uma melhor alternativa para obter dinheiro sem me submeter a um chefe. Desde muito nova eu já havia decidido que não queria um emprego com patrão, carteira assinada, carga horária e salário pré-determinados. Então eu trabalhava pesado para me manter e tentar economizar uma parte para viajar à Europa no meio do ano, na intenção de ficar por lá mesmo. Nada me prende ao Brasil.


Mas eu nunca me dei bem com a idéia de me sacrificar agora para receber os frutos depois. Até já tentei bastante, mas rapidamente atinjo o colapso e depois sobram apenas frutos muito verdes ou já estragados. Se não for para comer frutos maduros e doces agora mesmo, então eu nem quero. Pois não se trata apenas de um espírito rebelde, indisciplinado. Também alimento a crença de que a felicidade futura só é possível quando se é feliz agora. Abrir mão da diversão presente para garantir conforto, estabilidade e segurança futuros não faz parte da minha filosofia. Não acredito que funciona. Se não existe alegria e satisfação no dia-a-dia, todas essas conquistas são ilusórias.


Meu conforto está na consciência tranquila. Minha estabilidade está no entendimento das emoções. Minha segurança está na fé em Deus.


Então eu pedia a Deus uma maneira mais fácil e ainda mais livre de ganhar dinheiro. Pedia voltar à minha vida nômade o mais rápido possível. Deus respondeu enviando Dennys pra mim. Dennys é um viajeiro limenho, malabarista e equilibrista dos bons, silencioso, sorridente, eventualmente mulherengo, eventualmente alcóolico, lindo demais com seus traços indígenas. Ele chegou meio sequelado. Pois semanas antes de aparecer à minha cidade, entrou de penetra no Universo Paralelo, um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo que ocorre no litoral baiano a cada virada de ano. Misturou muitas drogas no cérebro e se lascou. Agora vivia uma fase sombria de não confiar em ninguém e se sentir paranoicamente perseguido. Enquanto nos envolvíamos namorosamente, eu ajudava a limpar sua mente e ele me inspirava a tocar o foda-se e voltar a viajar sem muita grana novamente.


Dennys só queria dar um rolê de poucos mil quilômetros comigo. Algo como:

Vamo até ali na chapada diamantina, fazer uns amorzinho na cachoeira.

- Quê!? Claro que não!

Meus planos de Europas eram muito certos e não aceitavam desvios sem propósito. Ignorava que a vida é mais criativa do que nós e que o Universo sempre encontra o caminho mais curto e mais fácil para realizar o que desejamos.


Pelas mãos de Dennys, Deus trazia um convite ao meu desejo de frescor, aventuras e vida nova. Pelas curvas das BRs tantas vezes já percorridas por mim, irei ainda mais longe, para lugares onde eu jamais estivera.


Não preciso esperar tantos meses de sufoco para ir à outro continente. A Terra é redonda. Saindo agora mesmo, andando em qualquer direção, eu dou a volta e chego a qualquer lugar que um dedo no mapa possa apontar.


Fazendo amor na ponte do Pina, após horas dançantes de reggae na zumbilândia do centro do Recife, meu cérebro estava suficientemente entorpecido para desviar da velha razão e deixar fluir à consciência, a voz da intuição dizendo:

É isso! Tá na hora de pegar estrada de novo. Do jeito que eu sei e do jeito que dá, pedalando e dormindo em qualquer lugar.

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