• Dora Lua

Para Retirar o Dinheiro da Equação

Atualizado: 1 de Ago de 2019


Primeira vez que criei uma fotografia na minha cabeça e depois a montei. Como fiz é uma história a parte :)

É possível viver sem dinheiro. Uma rápida pesquisa no google lhe apresentará diversos casos de pessoas que escolheram a completa abstenção dele, sendo alguns nômades, outros sedentários, uns solitários, outros em coletividade. E garanto que para cada caso que você encontrar, há pelos menos mais cem casos semelhantes pelo mundo cujas histórias nunca foram publicizadas.


Muitos argumentarão que quem vive sem dinheiro vive do dinheiro dos outros. Eu diria o contrário, o dinheiro é uma crença coletiva mais abstrata do que Deus, ninguém conseguiria viver de um papel pintado com tantos químicos tóxicos que não serve nem de seda emergencial para um beck; mas este ao menos tem algum valor estético, diferentemente do dinheiro virtual que não passa de códigos de computador. Então, na verdade, quem vive com dinheiro vive do que vivem todos os seres vivos do planeta Terra: do constante fluxo de energia na dinâmica natural do Universo, energia condensada, transformada, transportada, liberada, presenteada pela força do trabalho de inúmeros agentes diferentes, gravidade, sol, minerais, microorganismos, plantas, animais, pessoas.


A comida que tens em mãos, que comes e te nutre tem o valor da energia que te fornece, e tu já poderia regozijar-se pelo grande mérito de comê-la e assim permitir que a energia continue fluindo e expandido o Universo. Um cajueiro não se importa se o passarinho que comeu o seu caju foi cagar na raiz de outra planta, já é benéfico pra todo mundo que ele coma e que ele cague. São simples assim, as leis naturais.


Mas aí inventaram esse tal de dinheiro, cuja existência depende da disposição das pessoas em trabalhar em troca do direito de serem consideradas dignas. Dignidade é outra idéia tão imprecisa quanto o dinheiro. Por que raios eu sou mais digna e respeitada quando como uma comida pela qual paguei em dinheiro do que quando como a comida que pedi a quem tinha a mais? O dinheiro que temos parece funcionar como uma prova de que nós contribuímos suficientemente com o nosso trabalho para o bem-estar social e por isso temos o direito de receber benefícios como alimento e abrigo em quantidades e qualidades limitadas ao tanto de dinheiro que temos, cujo valor de troca oscila arbitrariamente mesmo que a comida paga mantenha sempre o mesmo valor nutricional. Pelo menos é o que nos fazem acreditar aqueles poucos que detêm quase todo dinheiro do mundo mas quase nada produziram na vida, além de arbitrar sobre o valor do trabalho de todo resto da humanidade.


Há um filme francês famoso nos meios hippie, de título La Belle Verte, que conta a história de uma mulher de outro planeta em visita à Terra. Logo no começo do filme há uma reunião com todos os habitantes do planeta extraterrestre onde, entre outras coisas, eles debatem sobre a necessidade de enviar alguém para viajar ao nosso planeta. Eles sempre estão visitando vários mundos para observar, aprender e ajudá-los no seu desenvolvimento. Não é difícil encontrar voluntários para viajar aos demais planetas, mas à Terra ninguém nunca quer vir, tanto que há duzentos anos não conseguiram enviar um representante sequer por aqui. Eles nos consideram quase um caso perdido, desencorajados pelo nível atrasado de nossa evolução. Transcrevo um trecho da discussão:

"[...]

- Nos outros planetas, aprendemos e ensinamos... mas na Terra...

- São bem atrasados, mas não é razão para não ir - responde, a anciã que botou o assunto em pauta.

- Poderíamos enviar alguém com o programa de desconexão para os fazer progredir mais rápido - sugere, uma mulher.

- Mas nem sabemos em que ponto estão - arguiu, outra pessoa.

[...]

Um ancião relembra que estava entre os últimos representantes deles a visitar a Terra (os habitantes deste planeta costumam viver por centenas de anos).

- É mesmo duro por lá? - pergunta, a anciã.

- Ah sim: a lei do mais forte, mulheres massacradas, sem partilha, matanças... acho que levariam anos para se livrar. Vimos que tinham o sistema do dinheiro, então antes de partir, escondemos ouro para nossa volta.

- E o que é dinheiro? - questiona, uma jovem moça.

As pessoas comentam sobre sua forma quadrada e como se utiliza para comprar coisas:

- Por exemplo, se necessitas algo, não podes consegui-lo sem dinheiro.

- Incluso para comer?

- Principalmente! - responde, o ancião.

- Mas isso é uma necessidade, a pessoa morre se não come! - levanta-se, outro rapaz.

- Não lhes importa, sem dinheiro não tens nada. - afirma, o ancião.

- Pensas que ainda utilizam o dinheiro? - pergunta, outro velho.

- Ah não, acho que não [...] - responde, o ancião."


Outro filme relevante para recordar neste texto é o meu favorito desde a infância, Os Deuses Devem Estar Loucos (The Gods Must Be Crazy), uma comédia de 1980 que foi sucesso de público na época. Meus pais assistiram juntos no cinema, quando ainda namoravam, e fizeram questão que assistíssemos também, não por causa do seu profundo conteúdo crítico (meu pai até considerava essa parte bem chata), mas porque o humor físico presente em toda a trama tem um timing tão bom que faz qualquer criança (e quase qualquer adulto) chorar de tanto rir. A história é sobre o primeiro contato entre um homem bosquímano que, junto com sua família, vivia isolado no deserto do Kalahari e a civilização. O filme começa como se fosse um documentário, com sequências de imagens ilustrativas do monólogo do narrador. Desta narração inicial, destaco alguns trechos:

"[...]

Deve ser o povo mais feliz do mundo. Eles não têm crime, punição, nem violência. Não têm leis, nem polícia, nem juízes e nem chefes. Acham que os deuses só põem coisas úteis na Terra para eles usarem. Nesse mundo deles não há nada ruim, nem maldade.

[...]

A característica que torna o bosquímano diferente das outras raças é o fato de não terem senso de posse. Onde vivem não há nada que se possa possuir, apenas árvore, mato e animais. Estes bosquimanos nunca viram uma pedra ou uma rocha. Eles conhecem bem a madeira e ossos. Vivem num mundo amável onde nada é duro como rocha ou concreto.


Há apenas 60 milhas ao sul, há uma grande cidade. E aqui há homens civilizados. O homem civilizado recusou-se a adaptar-se a seu meio. Adaptou seu meio para servi-lo. Assim ele construiu cidades, estradas, veículos, máquinas e redes elétricas para realizar seus projetos racionais, mas não soube quando parar. Quanto mais melhoravam o meio para facilitar sua vida, mais a complicavam. E agora seus filhos ficam de dez a quinze anos na escola para aprender a sobreviver nesse perigoso habitat onde nasceram. E o homem civilizado que se negou a adaptar-se ao seu meio natural tem agora que se adaptar e readaptar a cada instante ao meio criado por ele. Por exemplo, se o dia for segunda-feira e aparecer o número 7:30 você deve desadaptar-se ao meio doméstico e adaptar-se a um meio totalmente diferente. Oito horas significa que todos devem parecer muito ocupados. 10:30 significa que deve parar de parecer ocupado por quinze minutos, e então deve parecer ocupado de novo.

[...]

Mas no Kalahari é sempre terça-feira, ou quinta se quiser, ou domingo, nenhum relógio ou calendário comanda suas ações.

[...]"


No entanto, mais do que este monólogo inicial, a cena que mais me impressionou, quando criança, foi um dos momentos finais. O bosquímano havia trabalhado para um branco em troca de não ser mantido preso na cadeia, ao final o patrão lhe entrega um maço de notas como pagamento pelos serviços prestados. Ele pega o dinheiro, mesmo sem saber o que era aquilo, e quando já está longe do alcance do branco, deixa as notas caírem ao solo e serem levadas pelo vento.


Lembro de estar com os olhinhos arregalados ao final do filme, e a imagem do dinheiro voando nunca mais saiu da minha cabeça. Desde aquele momento, um dos objetivos da minha vida passou a ser viver sem dinheiro um dia. Enquanto crescia fui me deixando influenciar profundamente por idéias de figuras como São Francisco de Assis e, principalmente, Mohandas K. Gandhi, cujos livros raros eu garimpava com afinco nos sebos como se fossem ouro.


Porém, devo assumir que há dois anos atrás minha cabeça deu um giro de cento e oitenta graus e eu já não busco mais uma vida de ousadas abdicações, aliás, se me perguntarem, adoraria ser uma bilionária agora. Então este texto não tem intenção de promover o no-money-life-style, ele é apenas a minha melhor resposta para o tipo de pergunta que mais me fazem, "Mas como você faz pra se sustentar, pra comer, pra dormir...? E quando fica doente? E quando não tem dinheiro?".


Graças àquela minha antiga busca, isso nunca foi uma grande questão pra mim. Em diversas situações cheguei a passar semanas ou meses sem tocar em nenhum tostão, algumas vezes por escolha, na maioria das vezes por força das circunstâncias. Essas experiências fazem com que eu me sinta numa posição de raro privilégio nos tempos atuais e, mais ainda, em relação aos tempos que ainda estão por vir. Quando você experiencia não ter nada tantas vezes e durante tanto tempo, mas mantém uma atitude altiva e confiante perante o poder do Universo de sempre te prover com o que você precisa, acaba descobrindo que não é tão difícil assim, na real, às vezes é até bem mais fácil do que viver no esquema salário-boleto. Quando você finalmente descobre o que é não ter e mesmo assim sobrevive, como consequência ganha de presente o divino alívio que é a libertação do medo de perder.


Hoje em dia, estou muito determinada a ter sucesso financeiro, não porque eu tenho medo da pobreza, pobre eu já sou agora, e estou muito feliz onde estou, mas porque minha mente borbulha freneticamente com idéias de projetos ambiciosos de grande poder transformador e o muito dinheiro seria uma mão pesada na roda. No entanto, a busca por tal riqueza não é movida por nenhum tipo de medo, pressão externa ou angústia, é apenas um desafio divertido o qual estou disposta e confiante em conquistar.


Mesmo assim estarei mentindo se afirmar que estou totalmente imune às inseguranças da falta de dinheiro. É preciso estar sempre trabalhando pelo fortalecimento da mente diante do bombardeio de tanta propaganda do medo. Afinal, o medo é a mais garantida plataforma de sustentação do sistema doente ao qual estamos submetidos. O medo é uma grande fonte de lucro e o melhor veio de concentração de poder, pois quando sentimos medo, facilmente delegamos o nosso poder natural aos que mais convincentemente prometem nos proteger.


Várias vezes durante esta viagem fui capturada pela angústia de ter que trabalhar quando não sentia de ir. Tocar o foda-se e curtir a brisa ou sair pra manguear com ímãs? Eu adoro trabalhar contando as histórias da minha viagem, mas muitas vezes o peito pede introspecção, recolhimento, silêncio. Durante um desses momentos de conflito entre o bolso vazio e a falta de vontade de mexer para preenchê-lo, abri aleatoriamente uma daquelas versões em miniatura do Novo Testamento que costumamos encontrar em hotéis baratos, e caí nos seguintes versículos, onde, segundo Mateus, Jesus teria dito:


"Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal."

Não foi à toa que mataram o cara.


Curioso pensar como Jesus é o ser humano mais famoso do mundo, mas as suas mensagens mais empoderadoras e revolucionárias foram invisibilizadas pelo culto à sua personagem. Proposital, certamente. Eliminar a vida em seu corpo não foi suficiente para suprimir o vigor de suas idéias. Então o truque é bagunçar os seus ensinamentos e direcionar as energias do povo para a glorificação do seu martírio. Distração que vem funcionando há milhares de anos.


Mas o que aconteceria se todo mundo resolvesse parar de trabalhar só pra ter dinheiro? Se as pessoas passassem a trabalhar só com o quê, como e quando estivessem a fim? Não seria um caos na economia? E, consequentemente, um caos generalizado? O que aconteceria se todo mundo resolvesse seguir os ensinamentos de Jesus, se voltassem ao cultivo da elevação espiritual e parassem de sacrificar a autonomia sobre o próprio tempo para sustentar os luxos e os poderes dos 1% que dominam a civilização?


Eu não tenho respostas certeiras para tais questionamentos, mas estaria disposta a pagar pra ver. Tudo o que tenho são palpites. E o meu palpite principal é que seríamos uma sociedade muito mais produtiva, pois nos sentiríamos mais livres. A eterna vontade de descansar, a preguiça crônica, a desmotivação são filhas da repressão que é denunciada pelos sentimentos de apatia, tristeza, depressão.


Sem medo não há infelicidade. Seres sem medo da falta de dinheiro serão seres mais felizes. E seres felizes continuarão desejando construir, plantar, colher, criar, pesquisar, aprender e ensinar. Energia abundante continuará circulando. Os cajueiros continuarão dando frutos e os passarinhos e nós continuaremos comendo e cagando.


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Alguns exemplos de pessoas que experimentaram viver sem dinheiro por pouco tempo, por tempo indeterminado, ou pelo resto da vida.


Heidemarie Schwermer https://vimeo.com/40180627


Natale Pellegatti e Mariélli Pahim https://www.hypeness.com.br/2015/01/entrevista-hypeness-o-casal-brasileiro-que-esta-vivendo-e-viajando-o-mundo-sem-dinheiro/ Mark Boyle http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT300239-17770,00.html Daniel Suelo https://www.hypeness.com.br/2015/07/a-historia-do-homem-que-ha-15-anos-vive-sem-dinheiro/


Aline Campbell https://www.baixelivros.com.br/nao-ficcao/portas-abertas


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