• Dora Lua

O Único Essencial

Atualizado: 30 de Nov de 2019


Ilustração: Jô Anna

O maior desafio possível na vida nômade não é o que comer?, onde dormir?, como se vestir?, qual meio de transporte usar?, nem como ganhar dinheiro?. A grande questão que nunca deve ser negligenciada é: como manter a mente sã? Quando o medo, a insegurança, a dúvida, o desespero, o desânimo, a solidão indicam que seus pensamentos estão forçando na contra-mão da sua alma, é preciso saber o que fazer. Inteligência emocional é essencial para qualquer pessoa, independente do estilo de vida escolhido, mas para quem mora na BR, a mente equilibrada é determinante para responder àquelas primeiras perguntas e se proteger dos possíveis perigos.


Durante minhas primeiras duas décadas de vida, em vez de educação, tive deseducação emocional. E uma vez estando largada no mundo à própria sorte, permiti que monstros internos me consumissem e transitei por sombras desnecessárias que eventualmente ameaçam nublar a magia dos primeiros dias de viagem. Passar frio, fome, sede, adoecer, ou até sofrer alguma violência física na estrada, em geral é consequência do antecessor descuido com as necessidades do espírito, que precisa estar sobre-fortalecido quando estamos longe da rede de proteção de nossa família e amigos.


Dentre as porradas que me derrubavam, nada tinha um poder de destruição maior do que me apaixonar. Nunca vivi amores não correspondidos, mas existem outras maneiras de "sofrer por amor". Todas as vezes que voltei pra casa mais cedo que o esperado, com o rabo entre as pernas, a causa era alguma paixão que assolou tragicamente as forças necessárias para continuar viajando, pois no rastro da dor principal, escoem pra dentro quaisquer outros pensamentos bloqueadores de abundância: vergonha, culpa, revolta, auto-piedade, pavor, perdição, covardia, estupidez, carência, miséria.


Final de 2016 sofri a pior dessas quedas, e decidi que seria a última vez. Assinei um contrato comigo mesma: só iria me envolver com alguém novamente, quando aprendesse a ser feliz sozinha, mas não dessas alegrias efêmeras que nos tomam de repente e sem querer querendo nos fazem flutuar por algumas semanas, era preciso desenvolver uma felicidade estável o suficiente que me prevenisse de deixar apagar novamente minha luz, por não saber canalizar fortes sentimentos por alguém. Resolvi que passaria o ano de 2017 inteiro sozinha focando exclusivamente no meu próprio bem-estar. (Relativização safada: não que não tenha havido uma ou outra recaída, e acabei ficando com uns boy naquele ano, mas foram desvios rápidos e não apaixonados, então não conta).


Percebia-me no auge da humilhação, o que eliminou radicalmente qualquer vestígio da arrogância que me servia de escudo. Eu que sempre menosprezara qualquer conteúdo que cheirasse minimamente a auto-ajuda, agora passaria o dia inteiro consumindo-os avidamente. Iniciei atendendo ao pedido do meu ex na mesma noite que ele deu fim ao nosso relacionamento: comece a meditar. Imaginem só uma TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) desequilibrada tentando meditar, no entanto foi o mais útil conselho de toda minha existência.


Estou certa de que para sempre verei a meditação como meu grande ponto de virada. A partir dalí, utilizaria muitos outros métodos para elevar a vibração deliberadamente, e obteria sucesso na aplicação de todos eles. Tanta dedicação em exercitar felicidade acelerou o processo de acolhimento e superação da separação e me colocou em tal estado permanente de contentamento durante um bom tempo, que em algum momento cheguei até a sentir um pouquinho de falta da agitação dos velhos dramas. De repente a vida se tornara fácil por demais.


Em meio aos longos e corriqueiros minutos de contemplação daqueles meses levitantes, flagrei minha mente brincando de quebra-cabeça com pecinhas dos amores do passado na intenção de montar o boysinho ideal. De quase todo homem que passou por mim, era possível pegar alguma característica física ou de personalidade que eu gostaria de experienciar novamente. Espontaneamente voltei a esse exercício de mentalização algumas outras vezes. Enquanto a brincadeira era divertida, eu me mantinha jogando, mas quando eu tentava encaixar aspectos aparentemente contraditórios e duvidava da possibilidade dessa coexistência em uma mesma pessoa, tornando o jogo mais trabalhoso, eu simplesmente ia fazer outra coisa.


E então chegou mais um Fevereiro, e com ele veio Dennys, e com ele veio o chamado para voltar a viver a vida nômade, e veio também o choque: a Lei da Atração é real! Ele apresentava todas as características que eu havia imaginado, inclusive as que pareciam contraditórias entre si. Saber que sua aparição era consequência natural da minha criação deliberada me tornou imune às suas tentativas de boicote típicas das pessoas rebeldes e livres demais, que no contraste com a cultura dominante acabam aprendendo que relacionamento é necessariamente sinônimo de castração da liberdade, e se apavoram sempre que tempo e sentimento ameaçam tornar a conexão algo mais além de umas ficadas.


Apesar do excesso de confiança no potencial do relacionamento, confesso que inicialmente não foi nada fácil romper todas as barreiras que ele impunha. Tão irritante e cansativo quanto viver todos aqueles vais-e-vens desse menino, seria escrever e ler sobre o assunto, por isso é melhor pular o máximo possível dessa parte. Mas é relevante dizer que assim como apliquei a positividade para me curar das minhas próprias mazelas existenciais, fiz o mesmo com Dennys, ao ignorar as evidentes pistas de que ele era um macho uó, e paciente e insistentemente afirmar um mundo de coisas maravilhosas sobre ele que nem ele mesmo acreditava e de forma alguma havia demonstrado.


Quem testemunhasse bem de perto nossa relação ao longo do primeiro ano, certamente diria que eu estava cega e iludida por uma paixonite sem propósito. Porém, o desenrolar dos fatos vem mostrando que eu estava certa, pois de acordo com o que havia aprendido sobre a Lei da Atração, sabia que perceber-me apaixonada pela fiel manifestação dos meus sonhos significava que aquele encontro tinha todo o potencial de desencadear no mais lindo relacionamento imaginável. Tudo o que eu precisava fazer era continuar oferecendo pensamentos de acordo com aquilo que eu desejava viver e não em resposta ao que a tosca realidade momentânea parecia querer provar. Em vez de fugir como Dennys fugia, me entreguei ao amor por nós dois, e garanto que ele será o primeiro a admitir que se hoje nos sentimos como a família mais harmoniosa do mundo, o mérito é todo meu. No final das contas ele acabou se tornando tudo aquilo de esplendoroso que eu dizia que no fundo ele era, mesmo que seu comportamento tentasse me contrariar.


Assim como o sofrimento por não saber amar direito era a pior de todas as dores subtraindo até a última gota de energia para seguir adiante, seu oposto equivalente tem o efeito equivalente oposto, pois agora o amor saudável, intenso e livre é o melhor de todos os combustíveis para realizar até o impossível, canalizando ao eterno agora, os pensamentos fornecedores de abundância: alegria, coragem, sabedoria, conexão, liberdade, fé, auto-confiança, clareza, criatividade, gratidão.

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