• Dora Lua

Homem do Pife

Atualizado: 11 de Set de 2019

Série Personagens de Caruaru #4



Viajeiros comumente se encontram e se reencontram por acaso em cidades, estados e até mesmo países diferentes. Estando numa cidade de médio porte pra cima, basta procurar pelos points de boemia barata e diversão gratuita, que lá estará formada uma fluida agregação de artistas de rua forasteiros interagindo com os loucos locais. Há os que chegaram antes e já deram o tom do lugar, há os que chegaram depois a quem damos boas-vindas, há os que ficam por poucos dias e já vão embora, há os que apaixonam uma menina local e ficam por alí ao longo de vários meses se aninhando no alívio de um corpo quente depois de tanto tempo de fria solidão comendo o chão da BR. Seja como for, quase que inevitavelmente estaremos compartilhando momentos, sem que tenhamos marcado encontros, energeticamente atraídos e atraindo quem dança no mesmo ritmo de vida.


O Metal Beer é o bar dos rockeiros em Caruaru, aonde vai a galera alternativa da cidade. Pertinho desse tipo de bar, sempre há algum boteco pega-bêbo vendendo uma cerveja mais barata, e é alí onde os poetas pobres, músicos de calçada e malabaristas de semáforo se reúnem, mais sujos e barulhentos que os clientes do bar conceitual, espontaneamente criando um ambiente alternativo ao alternativo. Eram nas mesas externas do bar do metal, onde eu mangueava. As pessoas se animavam com minha história mas muitas vezes não podiam pagar pelo ímã, então me convidavam a sentar e a beber e comer. Ficava bêbada com apenas dois copos, continuava lisa mas com brilho alcoólico nos olhos, pronta para brincar na farra do bar do outro lado da rua. Álcool não me é isca tão tentadora, mas adoro uma bagunça, principalmente se tem um pandeirista tocando côco. Meses depois aprenderia a dizer não aos convites de bebida que me atrapalhavam a continuar o mangueio na mesa seguinte, e a focar no trabalho.


Numa dessas, de repente me percebi caminhando em bando para longe do bar. Para onde estávamos indo? Apenas segui pelas ruas estreitas e escuras distanciando do centro de Caruaru em meio àquela turma heterogênea de pessoas desconhecidas em sua maioria, pescando no ar algumas conversas referentes a alguém muito importante.


Finalmente entramos por uma porta na menor fachada entre todas as casas grudadas umas nas outras por paredes compartilhadas de uma estreita rua ladeirada de paralelepípedos. Apenas um cômodo de talvez pouco mais que vinte metros quadrados, bandeirinhas de São João penduradas sob as telhas, fotografias, banners, ferramentas, instrumentos musicais e peças de fabricação, imagens de santos católicos, recortes de jornais e outros tantos objetos pendurados por toda extensão das quatro paredes e ainda sobre os cômodos que arrodeiam toda sala. À primeira entrada, o excesso de objetos à vista pode dar a impressão de bagunça, mas ao olhar mais atentamente é possível perceber que a disposição de todas as coisas obedece a um cuidadoso senso de organização, praticidade e harmonia.


A oficina já estava ocupada pela Banda de Pífanos Dois Irmãos que ensaiava um arrasta-pé animado, já haviam outros jovens presentes e o nosso grande grupo entrou para ocupar os poucos metros quadrados que sobravam. Não sei como ainda foi possível dançar e caminhar alí dentro. A banda não se acanhou por não reconhecer a maior parte dos rostos novos que apareceram, era quase como se a sala fosse uma extensão da rua, onde qualquer amante da boa música regional seria bem vindo sem precisar de muita cerimônia.


O alguém-muito-importante era João do Pife, mestre da banda e anfitrião da casa-oficina. Velho músico e artesão primoroso, vive de tocar e fabricar pife. João do Pife gera fascínio principalmente nos viajantes músicos vindos de longe, entusiastas da música popular folclórica, que algumas vezes não conseguem disfarçar o brilho nos olhos típico dos fãs das grandes celebridades quando chegam perto de seus ídolos. João sabe disso e não tenta esconder suas vaidades, ao contrário, expõe-nas mais ainda temperando sua hipnotizante eloquência com sinceros e singelos auto-elogios que antes de gerar estranhamento nos ouvintes, nos conquistam ainda mais por virem acompanhados de sorrisos amorosos e contagiantes em sua simplicidade.

Chá, café, biscoito, pão com manteiga e papo bom.

Cheguei a visitá-lo posteriormente em duas outras noites mais calmas, acompanhada apenas do meu parceiro Dennys. Basta dizer que quer conhecê-lo e será recebido com os mais aconchegantes sorrisos e fiques-às-vontades e "Quer chá ou café?". Basta fazer uma boa pergunta e ouvirá as mais inspiradoras histórias de quem muito lutou e sofreu mas finalmente conquistou o mundo com sua arte. João que é de Pife desde pequenininho por ser, a música e o fabrico do instrumento, conhecimento passado de avô pra pai pra filho, é reverenciado como Mestre mesmo que não saiba ler nem o Português, muito menos o Inglês e o Francês dos recortes de jornais internacionais com fotos suas em destaque apregados orgulhosamente pelas paredes.

Deixei de lembrança um ímã da sanfoneira grávida no nascer do Sol na praia. Mas como ele não tinha geladeira na casa, o jeito foi improvisar em outro objeto de metal.

Quase conto aqui, um resumo da sua trajetória, das suas lutas e suas glórias. Mas se o fizesse, estaria cometendo um desserviço ao leitor curioso, pois ninguém jamais poderá contar melhor que João a própria história, nem poderá tocar o seu pife, nem poderá repetir tão deliciosamente a sua conversa, não só por causa dos bons causos e da boa sabedoria, mas também porque ele preserva aquele sotaque gracioso dos pernambucanos de antigamente, como minha avó, que falam sem muito abrir de lábios e como se tivessem alguns algodões dentro da boca, fazendo com que as palavras soem mais macias. E graças à Deus, estamos na internet e não num livro ou jornal impresso, o que me poupa o trabalho de tentar escrever o mais-ou-menos e poder lhes apresentar o ideal, João do Pife por ele mesmo.


De todos os muitos vídeos de João do Pife disponíveis na Internet, esse é o que eu achei mais legal e completo para linkar neste post, apreciem tamanha fofura *-* http://www.saberestradicionais.org/joao-do-pife/



Seu João fez questão de posar para uma foto ao lado do retrato dos pais falecidos (canto superior direito).

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