• Dora Lua

Homem de Mel de Abelha

Atualizado: 11 de Set de 2019

Série Personagens de Caruaru #3


Há uma vantagem bem conveniente em estar vivendo o nomadismo, livre de regras e longe de rotinas desgastantes: bastante gente gostaria de fazer o mesmo. E se por razões diversas não o fazem, ao menos se contentam em desfrutar da companhia de quem faz. Então é comum que facilmente recebamos carona, cama e comida não só porque a humanidade abunda em generosidade mas também porque muitos dos nossos benfeitores, declarada ou disfarçadamente, no fundo gostariam de ser o que somos.


Porém, muitas vezes, a imagem dos viajantes é super-mistificada pelos mais sonhadores. Enquanto muitos de nós estão viciados em drogas das mais leves às mais pesadas, ou afundados em relacionamentos abusivos com seus companheiros, ou passando por crises existenciais psicologicamente mais complicadas do que as crises prévias à vida na estrada, ou amargando solidões e carências enlouquecedoras, ou, muito frequentemente, aguentando tudo isso ao mesmo tempo; somos enxergados por outros como heróis, pessoas mais elevadas espiritualmente, seres iluminados, bem resolvidos na vida, mensageiros da paz, eticétera e eticétera.


Quando temos apego à nossa imagem, projeções superestimadas sobre a nossa personalidade pode nos afetar tão mal quanto os julgamentos negativos. Seres buscadores da verdade costumam ter a necessidade de serem bem compreendidos, vistos pelo resto da humanidade como realmente são, e ainda mais pelas pessoas que nos admiram, pois não queremos decepcioná-las jamais. Mas graças à enorme variedade de pessoas que encontramos pelo caminho, a estrada também pode evidenciar com maior clareza que tudo o que pensam e sentem sobre nós não é da nossa conta na verdade. Não importa se é a sua mãe ou um desconhecido que te avistou rápido e de longe, qualquer conclusão que tirem sobre você tem a ver apenas com a lente com a qual o sujeito que conclui enxerga o mundo e com a qualidade da relação construída entre ambos.


Inevitavelmente só posso ter controle sobre quem eu mesma acredito que sou, e a qualidade das minhas relações com outras pessoas depende totalmente da qualidade da minha relação comigo mesma. Acreditar que sou uma fraude me coloca numa situação de conflito com meu Eu, e alimentar demais tal pensamento conflitante poderá me levar a agir de maneira confusa e problemática, e que, em algum momento, poderá gerar a tão temida decepção alheia. Profecia auto-realizadora que chama, né?


Então quando eu estava imersa em confusões mentais e emocionais, e ainda sofria com fortes dores sempre que sentava ou levantava, graças à lesão no cóccix que me pedia um maior tempo de repouso antes de botar a bike na BR de vez, Lula do Mel apareceu nos definindo como seres cristais com a nobre missão de catalisar a mudança terrestre para a nova Era de Aquários, e convidou a mim, Dennys e Psiu para passar um tempo hospedados no idílico Solar das Abelhas. O que eu poderia dizer? Então tá, né?

Passamos agradáveis semanas numa deliciosa casa permacultural, vizinhos de Raul e de Ed, envolvidos por minhas cores favoritas, o marrom do barro que reboca as paredes por dentro e por fora e o verde do mato onipresente na zona rural agrestina, rodeados por muitos cães e gatos que perseguem Lula do Mel para todos os lados, atraídos por sua energia de constante carinho expressa na sua fala mansa e doce, e como se este fosse o seu grande mestre a quem devessem proteger.


Porém, para mim, Lula é mais das Abelhas do que do Mel. Tá certo que ele vende os produtos da apicultura e por isso seja mais reconhecido por sua atividade comercial, pois vivemos tempos onde a fonte do dinheiro que temos ainda é mais importante para definir quem somos perante a sociedade, mas Lula é, antes de tudo, um visionário, um protetor do futuro próspero, tão ciente do poder das abelhas sobre a nossa existência que abraçou como missão espiritual na vida estender a sua paixão por elas ao máximo de pessoas possíveis.


Como ex-educanda de Agroecologia, eu bem já sabia que cerca de 80% das espécies vegetais dependem das abelhas para se reproduzir. Dois terços dos alimentos que comemos foram polinizados por abelhas. E caso sejam completamente extintas do planeta Terra, tamanho desequilíbrio na biosfera poderia, segundo algumas projeções, provocar o fim da humanidade em apenas quatro anos. Mas foi o Lula quem me ensinou que as abelhas dançam com inclinações do abdômen em ângulos precisos para indicar às companheiras onde está o néctar a ser coletado em relação ao Sol.

Enquanto milhares de publicações mundo afora, alardeiam sobre a extinção de dezenas de espécies e a drástica diminuição no número absoluto de abelhas em todos os continentes, devido principalmente ao uso intensivo de agrotóxicos, às mudanças climáticas e à poluição, Lula do Mel das Abelhas semeia esperança ao construir um espaço dedicado a compartilhar conhecimento para promover a harmonia intrínseca à vida coletiva destes insetos na sociedade humana.


Lula me viu como um ser especial, mas porque ele olha o mundo de maneira especial. Se a maneira como nos enxergam não tem tanto a ver com o que nós somos de fato, por outro lado a atenção que damos ao que os outros pensam sobre nós pode nos influenciar negativa ou positivamente. Já percebeu como temos uma maior facilidade de sermos bons quando estamos ao lado de algumas pessoas, enquanto que na presença de outras sentimo-nos mais defeituosos no nosso comportamento? Costumamos ser versões diferentes de nós mesmos, a cada pessoa diferente que cruza o nosso caminho. Acredito que isso acontece porque quando estamos vulneráveis às vibrações exteriores a nós, estamos mais sujeitos à influência que a energia emanada pela expectativa alheia provoca sobre nossa própria energia.


Em meio às minhas escuridões, Lula chegou como uma abelha dançante indicando o caminho do Sol, e o seu olhar luminoso me ajudou a clarear. Se por um lado me sinto um pouco apreensiva quando me vêm como um ser tão iluminado apenas por ser uma viajante com poucas posses materiais, por outro lado posso desviar dessa percepção de exagero e permitir que a luz projetada sobre mim entre sem barreiras na mente, me fazendo relembrar que no fundo eu sou mesmo toda feita de Luz como todo mundo é.


Vista frontal do Solar das Abelhas

Vista lateral do Solar das Abelhas

Parte externa da casa onde fomos hospedados. Éramos só nós três (eu, Dennys e Psiu) na casa.

Parte interna da casa (nosso quarto).

Plantando milho crioulo na área externa do Solar das Abelhas.

Lula do Mel e os bichos.

Lula, os bichos e os milhos.

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