• Dora Lua

Homem de Barro

Atualizado: 2 de Ago de 2019

Série Personagens de Caruaru #1

Ele trabalhava em sua obra mais impressionante, o dia inteiro, todos os dias, há várias semanas. A cada dia eu via surgir novos dentes, novas rugas se contraindo em agressividade, novas veias pulsando visíveis sob a superfície da pele áspera, novos espinhos se projetando de sua espinha dorsal; havia um detalhamento realístico até na cutícula da unha do dedo mindinho daquele musculoso monstro de barro de meio metro de altura.


Testemunhei a criatura surgindo pouco a pouco, ao longo de várias centenas de horas de hiperfoco, pelas mãos de Raul, o artista. E quando o estado da obra já estava em seu último estágio de finalização, o monstro pendeu do suporte e caiu de cara no chão, espatifando-se de maneira irreversível.


Numa conversa sobre a sua crônica dificuldade de aprender qualquer matéria na escola, Raul tentou explicar:

- Muita gente não entende quando eu falo, mas talvez você vai entender... Eu sinto que minha mente funciona de um jeito diferente. Não cabe entrar nada de fora pra dentro. Minha mente só funciona de dentro pra fora.


E porque o nosso sistema educacional doentio é baseado em currículos pré-estabelecidos por velhos doutores que há muito tempo já esqueceram como é ser criança, ignorando como cada serzinho na Terra chega com uma enorme vontade livre de explorar o mundo segundo seus próprios impulsos e desejos, tratando os cérebros jovens como se fossem meras caixas vazias recém-fabricadas e destinadas a serem preenchidas por informações fedidas a ácaro, Raul, cuja "caixa" não se encaixava, foi equivocadamente classificado por aqueles números estéreis (chamados 'notas') como um menino sem inteligência, ou preguiçoso, ou desatencioso, ou deficitário, sem chances de um futuro brilhante, menos digno de atenção, e, em consequência disso, teve que penar algumas décadas de serviços braçais em São Paulo, de baixa remuneração e, principalmente, baixa satisfação pessoal.




Só perto dos quarenta anos, de volta ao bairro de Alto do Moura, maior Centro de Arte Figurativa das Américas segundo a UNESCO, em Caruaru, município natal de Raul, que ao fazer os seus primeiros soldadinhos de barro, pôde descobrir seu verdadeiro prazer, dom, vocação. E sem que ninguém lhe dissesse como, foi fazendo mais e se aperfeiçoando. Fugindo ao padrão local de esculpir figuras rústicas agrestinas, Raul cria dinossauros, monstros, automóveis, esqueletos e até bandas de metal. Parece ter zero habilidades para vender seu talento, fazendo pelo prazer de fazer agora, quase desapegado do resultado da sua arte.



Dizem os outros que, certa vez, a prefeitura de caruaru lhe comprou uma de suas obras, pagando-lhe com um cheque de 300 reais. Quem vê Raul com suas panelinhas velhas e sujas de carvão, cozinhando seu feijão com arroz no fogão à lenha, morando numa casa de favor e de cômodo único, enquanto batalha tijolo a tijolo pra construir sua própria casa, conclui obviamente que 300 reais é mesmo dinheiro para este homem. Mas a fila do banco tava grande e ele não tava a fim de esperar. Rasgou e queimou o cheque.


Acredito totalmente nesta história, porque enquanto eu e Dennys ficamos estarrecidos quando vimos em pedaços, aquele monstrengo cuja evolução admiramos por tanto tempo, Raul se esbaldava em gargalhadas, pedindo fotos da obra desfeita, não pela tristeza do tempo "perdido", mas pela diversão do acontecido.


Um homem que trabalha o barro e vive como se barro, ele mesmo fosse. Desapegado à forma inevitavelmente mutante, satisfeito pela essência eterna. A cada dia se alimenta do que expressa, dando vazão aos sentimentos que escorrem pelas mãos e se derrama sobre algum amontoado de solo amorfo fazendo-o se encher de animus, comunicando a sua imaginação ao mundo, mesmo que o mundo não se importe em ver. É a vida mais autêntica. É a arte na sua expressão mais pura.






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