• Dora Lua

Despedida...

Atualizado: 22 de Jun de 2019

...do mar...


Ilustração: Vitor Ribeiro de Souza

Não dava para ver cores do pôr-do-sol, pois o céu estava completamente nublado e chuviscando.


A maré alta de ondas bravas e contínuas me jogava sargaços e plásticos na cara. Nadei mais ao fundo, me afastando de onde as ondas quebravam, procurando uma zona com menos sacolejo e menos lixo. E onde meus pés estivessem suficientemente distantes do leito do mar, para que eu dançasse em mergulho na água salgada, brincando de sereia pela última vez.


Do Recife dos arrecifes, me afasto

Minha busca é em mar aberto


Os bombeiros apitam lá de cima do posto de observação. Eu não escuto. Tenho apenas o som do mar agitado à minha volta, silenciando o barulho urbano.


Quando nado de volta, os salva-vidas já estavam vindo ao meu encontro para soltar o sermão. Obviamente havia muitos fatores de risco no momento da minha despedida do oceano. Considerando que é a praia com o maior número de ataques de tubarão na América do Sul, eu ainda estava numa área sem recifes de proteção e já muito longe da faixa de areia. Eu não tenho desculpas a dar, simplesmente faço essas coisas. Até porque eu sei que a chance de alguém sofrer um ataque desses é de uma em dez milhões. Coincidentemente, naquele mesmo dia, a alguns quilômetros ao sul, um homem que nadava com a água na altura da sua cintura não estava tendo nenhuma sorte: teve a perna arrancada.


Meu último dia em Recife não poderia ter sido mais típico.

...de ninguém.


Dennys colocou todas as suas coisas sobre todas as minhas coisas em cima da bicicleta e foi empurrando os seis quilômetros até a estação de metrô Antônio Falcão, ocupando quase uma faixa inteira da avenida, enquanto eu ia rebolando à sua frente, ao ritmo brega funk, só para entretê-lo durante a caminhada.


O trajeto mais conveniente passava em frente ao prédio do meu pai. Deu para ver, pela janela do terceiro andar, a luz acesa da sala. Ele devia estar assistindo televisão. E bem que poderia dar uma espiada lá fora pra sentir uma brisa e contemplar a noite deserta das ruas super muradas de Boa Viagem.


Ele não buscou a brisa e perdeu de ser o último sujeito conhecido a ver sua filha passar de roupa curta ao lado de um loco peruano, indo pegar o último trem da noite para partir da sua terra natal. Sem saudosismos, sem emoção especial, nem mesmo alívio, nem nada.


Mas eu sim, o contemplei àquela janela vazia. A luz acesa indica que ele está vivo e fisicamente por perto, mas com a falta de um rosto que faça a diferença de um apoio e que eu não quero nem chamar… Tá aí: a imagem paradoxal da presença ausente é uma boa memória que eu vou ter do meu pai. Uma imagem que tem muita a ver com a nossa relação que sempre foi como um abismo de quilômetros de profundidade, mas com apenas quatro metros de largura entre uma margem e outra. E nem mesmo sendo uma família de atletas, conseguimos saltar os quatro metros de profundezas e escuridão sem fim que nos separam.


Não me sinto mais no dever de me esforçar para pular ao outro lado. Sinto que está tudo bem com isso. Não é que não exista amor, apenas não é necessário, e muitas vezes nem é desejável. Agora eu viro as costas para o abismo e avisto uma terra sem buracos à minha frente, de luzes e cores em abundância, cheio de espíritos novos ao alcance da minha antena.


Sei que muitos irão discordar de mim e dirão que "família é importante e você precisa estar sempre em contato com eles”. É sim. Eu sei. Mas mais importante ainda é você buscar sintonizar-se com quem você quer ser. E muitas vezes a família quer que você seja o oposto ou, na sua tentativa de te proteger, te atrasam dos seus sonhos, com uma energia que no fundo não te faz bem.


Aprendi que 'não faça' nunca é um bom conselho, e que o 'sim' é o melhor que você pode dizer a quem você ama. Apenas na direção do 'sim' eu vou. Onde ele não está presente, não me demoro.


Sintonizo ao que se abre à mais fresca versão de mim mesma, à mais evoluída versão de mundo, ao mais translúcido sorriso do SIM.



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