• Dora Lua

Alegria Tardia


Vale do Catimbau. Fotografia: Dennys Gamboa

Aos que me perguntam sobre como "surgiu essa coisa de sair-por-aí-assim-desse-jeito..." eu posso escolher entre ao menos cinco versões de respostas diferentes, todas elas verdadeiras. Poucas vezes caminhei por uma única estrada; ao contrário, estou quase sempre multiplicando as pernas e percorrendo vários labirintos simultaneamente. Me perdendo e me reencontrando. E se, graças a isso, não posso dizer que, aos 27 anos, já cheguei a algum lugar sólido e objetivo, por outro lado, com certeza posso dizer que já passei por uma variedade rara de "lugares" (experiências) que me servirão para alcançar um mais amplo escopo.


Neste texto apresento mais uma versão do porquê de eu estar na estrada em definitivo:


Percebo em mim um espírito ansiosamente transformador desde que me entendo por gente. Na infância, ao lado dos meus sonhos de viver espetaculares aventuras também haviam os megalomaníacos planos de mudar o mundo. Pois então não é por acaso que as primeiras vezes que botei o pé no mundo sozinha, estava indo ao encontro de eventos e situações que se propunham a construir uma nova forma de ser para a humanidade. Sempre me orientando por alguma forma de ativismo, tentando descobrir como acabar com a miséria e frear o colapso ambiental, seguindo uma trajetória confusa, porém tendo como bússola, uma clara utopia em construção. Ao londo dessas andanças descobri inúmeras lindezas, entre elas, a Agroecologia, uma ciência holística que me apresentou uma rede de soluções para os principais problemas da humanidade.


Após quase 3 anos (2012-2014) viajando o Brasil, decidi fincar os pés na Caatinga para estudar e trabalhar pelo desenvolvimento da Agroecologia. Por mais 3 anos intensos (2015 - 2017) estive ao lado de organizações e movimentos sociais dos sertões da Paraíba e Pernambuco, dedicando-me integralmente às causas dos agricultores familiares do semiárido. Aprendi como nunca, mas também permiti que minha saúde mental se desgastasse a níveis perigosos. Só quem já mergulhou de cabeça em alguma organização social que lide diretamente com o povo mais vulnerável pode entender a dimensão das demandas praticamente inalcançáveis às quais somos submetidos.


Meu emocional já estava por um fio quando me engajei numa última ação. Eu vinha acompanhando uma família de uma aldeia indígena Kapinawá no Vale do Catimbau, um parque nacional pouco conhecido no semiárido pernambucano, por mais de um ano trabalhando sozinha e voluntariamente, tendo que conciliar o trabalho de vendedora ambulante com o de técnica agroecológica, sem um mínimo de estrutura. Viajava de carona todos os meses até esse local, diagnosticava junto à família as suas necessidades, e propunha soluções que não se concretizavam devido à insuficiência de água.


Então criei uma campanha de financiamento colaborativo para a perfuração de um poço artesiano. Durante cerca de 3 meses, abandonei até a minha única fonte de renda, a venda de salada de fruta na praia, para dedicar-me exclusivamente à arrecadação dos 14 mil reais necessários à materialização do poço. Foi um trabalho hercúleo, ingrato e exaustivo, afinal não é fácil convencer as pessoas a darem dinheiro, ainda mais quando você é pobre, inexperiente e tem limitadas ferramentas de marketing. Era grande o medo de não alcançar a meta dentro do prazo limite, pois era uma campanha do tipo ou-tudo-ou-nada, o que significava que se não atingíssemos o valor mínimo em 60 dias, qualquer centavo já doado seria devolvido aos colaboradores. E não era como se eu perdesse a oportunidade de ganhar algo pelo qual sonhei individualmente: essa era a primeira chance que uma mãe de família analfabeta que conheceu a fome e passou toda a sua vida tendo que se submeter à toda sorte de subempregos possíveis, de finalmente trabalhar a própria terra com autonomia e segurança para prosperar com seus filhos. Ou seja, eu havia prometido a carta de alforria a quem sempre se sentiu acorrentada pelo fio de aço da pobreza. A pressão de tamanho compromisso não me deixava dormir direito.


Mas ao final, por uma explosão de contribuições ao finalzinho do segundo tempo, arrecadamos quase 18 mil reais. Não senti nem uma gota da exaltação esperada. Nem sequer comemorei. Apenas respirei fundo na brisa de uma extra-dose de alívio.


Descontadas as taxas de transferência do dinheiro e a comissão da plataforma online onde fiz a campanha, foram depositados em minha conta-poupança cerca de 16 mil reais. Quando consultei o saldo no caixa eletrônico, parei por alguns segundos contemplando aquele número. Apenas durante uns 10 meses do único emprego formal que tive na vida, cheguei a ter pouco mais de mil reais no banco, e nunca cheguei a ter mais de 1500 reais de uma vez só. Aquele número me fez lembrar os tantos sufocos materiais que passei em família e também na quase solitária vida adulta. Pensamentos que sugaram como um vácuo qualquer tipo de forte sentimento, restando apenas algo parecido como um grande vazio.


Saindo do estupor, imediatamente me dirigi ao caixa normal para solicitar a transferência de tudo o que havia na minha poupança à conta de Vanda, a mãe da família. Voltei ao caixa eletrônico e mais uma vez consultei o saldo: 0,00 reais. Também contemplei o novo número por um tempo. Lembrei da dívida acumulada em um outro cartão de crédito. Pensei nos tantos dias que teria de carregar, cortar e vender as dezenas de quilos de fruta para compensar a pausa que fiz para a campanha, enquanto a máquina insensível do sistema bancário seguia abrindo um pouco mais a ferida do meu tempo de vida para dar procedimento à sua fria sangria. Alí um dos mais importantes pontos de virada: decidi que nunca mais me sacrificaria por uma causa ou por alguém, enquanto não fosse capaz de me manter primeiramente sã, bem alimentada e segura para os dias que virão. Decidi que agora seria mais egoísta e me daria o direito de dar contentamento ao espírito e prazer e descanso ao corpo.


Na esteira de importante decisão, o chamado de volta à estrada, minha verdadeira casa, cujos gritos eu ignorava, agora rugiam mais fortes, já que agora, eu me permitia ouvir.



Aí está a razão pela qual ignorei todos os outros pontos cardeais e rumei firme para o oeste. Haviam algumas pendências em relação ao projeto no Vale do Catimbau. Eu tinha enviado o dinheiro à família, mas devido aos meus perrengues financeiros, não voltei à aldeia ao longo dos 6 meses seguintes do término da campanha. Ainda era preciso dar uma satisfação aos colaboradores: filmar o poço e organizar a distribuição das recompensas.


Então que no dia seguinte à nossa chegada a Arcoverde, saímos da BR - 232 para a malacabada PE - 270, ainda naquela de mais suportar a agonia da gata do que aproveitar a viagem. O novo trecho não tem acostamento, mas tem muito mais curvas.


O plano era chegar à casa de Vanda custasse o que custasse. Afinal quando, numa cicloviagem, visamos um destino próximo com garantia de cama quente e comida boa, inevitavelmente pressionamos o pé no pedal com mais força.


O céu se fechou em cinza. E a tempo de escapar das primeiras gotas por poucos segundos, avistamos uma capela minúscula rodeada por um milharal na outra margem.


Não devia ter mais que 10 metros quadrados. Não tinha porta. Paredes descascando, com rachaduras e manchas de infiltração. Alguns pontos de goteira. Pareceria uma construção abandonada se não fosse o altar impecável, que não passava de uma mesinha retangular como as de escritório, com uma renda branca alva como se nova. Uma grande Bíblia e umas poucas velas e santos velhos.


O som pesado do toró fazia o cômodo parecer ainda mais silencioso e sagrado. Sem ter muito o que dizer, aceitamos que talvez dormiríamos alí caso a chuva se demorasse. Sentamos e esperamos.



A chuva se foi rápido como quando veio.


O pôr do Sol chegou com pontualidade indiferente. Dennys quis parar e acampar. Nós não tínhamos dinheiro para o jantar. Ele queria pedir, eu queria continuar. Ganhei a discussão por estar irredutível. E nos fiz pedalar no escuro, desviando dos buracos quando um farol de carro, moto ou caminhão cruzava iluminando o chão.


Finalmente entramos na estrada do Catimbau. Agora já não havia mais faróis de automóveis passando, não havia postes iluminando, não havia estrelas, nem Lua, pois o céu ainda estava fechado. Escuridão total. Não era possível ver a cara um do outro, mesmo estando frente a frente. Lembrei que eu tinha um pequeno pisca-pisca xinguilingue, e com ele conseguimos iluminar mais ou menos um metro a nossa frente. Seguimos bem devagarzinho por cima da faixa amarela no meio da pista, que nos servia de guia.


Só percebi que estava frio, quando meu corpo já não estava tão quente, graças à diminuição do ritmo de pedalada, tão vagarosa quanto uma caminhada. A centenas de quilômetros do mar, já sentíamos o efeito da continentalidade que faz a noite ter uma grande diferença negativa na temperatura em relação ao dia, ainda mais sendo inverno.


Ao chegar numa descida muito íngreme, paramos em meio a alguma nova discussão cuja causa não lembro. Mas lembro que a obsessão de chegar à casa e a novidade do frio, que provavelmente foi o que fez Psiu voltar a miar tristemente, me deixaram num estado de nervos ainda mais estressante.


Distraidamente, olhei pra trás por um momento enquanto argumentava, e ainda estava falando quando voltei com a cabeça e, de repente, me percebi completamente sozinha. Dennys sumiu rápido no breu, como mágica.


Eu gritei por alguns minutos para o nada, mas não obtive resposta. Por falta de opção, segui descendo sozinha em meio ao pretume e silêncio, mais freando que pedalando. Sem exagero, posso dizer que estava a uma velocidade próxima de 1 quilômetro por hora.


Só muito tempo depois pude encontrá-lo bem mais adiante. Eu estava puta. Ele, radiante.


Tempos depois, ele me confessaria que foi naquele momento que ele conseguiu dissipar todo ciúme que sentia por mim. Descer com a bike em alta velocidade numa estrada desconhecida, sem enxergar nem um centímetro a frente do nariz, sem saber se uma curva inesperada lhe surpreenderia com a morte, fez com que ele se sentisse livre como nunca. Uma mente liberta, não é capaz de aprisionar ninguém.


Conversando virtualmente sobre aquele dia mais uma vez, ele relatou:

"Adrenalina faz viver o momento presente. Decidi largar a bici porque estava aburrido. E era muito atraente a idéia de descer às cegas. A bicicleta foi pegando velocidade sozinha. A única coisa que eu poderia fazer era apertar o freio, mas isso, nesse momento, iria contra a minha natureza de confiança e diversão. Foi algo estúpido desde o ponto de vista da minha saúde. Mas nesse momento só queria sentir o vento a toda velocidade. Tinha certeza que tudo ia sair bem, que tudo estava sob controle. Tu tava estressada, obcecada em chegar à casa. Havia uns mocós massa no caminho, mas tu queria forçar a barra. Bom, então se vamos forçar a barra, vamos com tudo, né. A la mierda, a lógica. Vamos soltar a bici e sentir o vento preto. No momento da descida só pensei que podia morrer. Mas todos os esforços e os pensamentos eram pra não morrer. Depois da descida, vendo que seguia vivo, que o Universo me queria inteiro, com adrenalina e um sorriso, vi que não precisava mais nada, que eu tinha tudo ao estar vivo. E se tem alguém me amando, posso amar enquanto esteja do meu lado. Enquanto não está ao meu lado, eu estaria muito ocupado recebendo amor do Universo. Através da vida ou através das pessoas que estejam com o canal aberto para ser o portal por onde passa o amor universal."



Chegamos à vila do Vale do Catimbau. A noite já estava adiantada, e nas poucas ruazinhas de paralelepípedos da vila, não havia viva alma. Mas Vanda não mora na vila. Vanda mora na aldeia, a uns 15 quilômetros da vila. 15 quilômetros de areia fofa como a de praia. Continuar pedalando naquelas condições seria impraticável. Além de tudo, estávamos exaustos.


Nos conduzi até a casa de uma amiga de Vanda, que entrou em contato com ela por whatsapp (aaah, tecnologia!), que por sua vez convocou duas motos para nos levar. Deixamos as bikes, e só carregamos o essencial para os dias na aldeia.


Pegar uma moto no Catimbau é sempre uma aventura. Como em qualquer zona rural muito erma no Brasil profundo: ninguém usa capacete, ninguém tem carteira de motorista, maioria das motos não tem placa, ninguém parece conhecer os conceitos de limite de velocidade, idade mínima para dirigir, ou limite máximo de pessoas sobre uma única motocicleta. Todo mundo tem um parente que morreu em acidente de moto, ou tem uma cicatriz fruto de acidente. A cada tantos metros há uma cruz em homenagem a alguém que fez a passagem abruptamente naquelas curvas. E não adianta pedir que "pelo amor de Deus, moço! Vá mais devagar"...



Finalmente chegamos à casa de Vanda. Fiquei em choque. Poucos meses depois da construção do poço, já parecia um outro lugar. A horta estava enorme. Cada metro da área agricultável estava verde. A minúscula casa que abrigava uma família de 5 pessoas, mais que dobrou de tamanho. Havia novos móveis e eletrodomésticos. Tudo fruto da venda das hortaliças orgânicas e plantas alimentícias não convencionais que Vanda leva à Recife.


A alegria que não senti ao término da campanha, agora me arrepiou cada pêlo do corpo. Eu chorava, pulava pela casa, abraçava e soltava sons esquisitos de exclamação...


Aah sei lá... tô chorando de novo enquanto recordo para escrever... e não sei como terminar esse relato... não sei como fazer entender o que aquele poço significou para aquela família, e o que significou pra mim... apesar de todo sacrifício, tô feliz por ter feito o que fiz. Sonho com o dia que será mais fácil poder fazer muito mais. Fé em Deus.


Netinha de Vanda


Ps: Aos viajantes amantes dos lugares preciosos mas com pouca exploração turística, aconselho a darem um google em "Vale do Catimbau". E se vocês quiserem experimentar o melhor da alimentação vegetariana, viva e agroecológica, me escrevam e eu lhes colocarei em contato com Vanda (quem for de Pernambuco, também poderá encomendar produtos orgânicos com ela). Já os que quiserem ir mais a fundo nesse rolê detox, conheçam o Centro Verde Vida, também no Catimbau: http://www.centroverdevida.com.br/

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