• Dora Lua

A Arte do Mangueio


Os cinco primeiros ímãs. Fotografia: Dennys Gamboa

'Mangueio' é certamente a expressão mais recorrente dentro do jargão dos malucos de estrada, tanto que a palavra extrapolou o mundinho da malucada e hoje está na boca de todos os outros grupos que compartilham ambientes e conjuntos de experiências em comum com os malucos: favozeiros, hippies contemporâneos, mochileiros, vendedores ambulantes, malabaristas/músicos/performers de rua, moradores de rua e etc. O mangueio é o meio pelo qual conseguimos obter a maior parte das coisas que queremos/necessitamos, utilizando-se de estratégias bem ou mal elaboradas de abordagem e convencimento. Não é à toa que frequentemente fala-se na "arte do mangueio" e saber manguear bem é muitas vezes motivo para se gabar. Manguear, a depender do contexto, pode ser traduzido como pedir, convencer, vender, trocar, contar uma história cativante para obter algo do ouvinte, conquistar.


A maioria dos viajeiros aprende e desenvolve a arte do mangueio na estrada, outras pessoas são naturalmente espontâneas, comunicativas, caras-de-pau, desenroladas, sem-vergonhas, cheias de pala (quem conhece essa? rs). Eu me enquadro definitivamente no segundo grupo. Sempre fui particularmente boa em engajar as pessoas, falar com estranhos ou discursar em público. No entanto, como qualquer um, posso eventualmente me sentir bloqueada por pensamentos de dúvida, fruto de condicionamentos sociais que nos fazem crer que talvez não mereçamos ou não devamos ter aquilo que queremos, ou ao menos não através dos caminhos alternativos que escolhemos.


Tais pensamentos retardantes me provocaram um tanto de nervosismo nos dias que precederam o primeiro momento de mangueio dessa jornada. Eu era ótima em vender salada de fruta na praia, e na maior parte do meus primeiros três anos na BR, mesmo quando trabalhei com diversos tipos de artesanato, eu raramente os vendia, quase sempre trocava por comida. Mas agora eu tinha uma sensação de que estaria tentando vender algo um tanto inútil, afinal quem precisa de ímãs de geladeira?


A primeira pessoa que eu vi vendendo fotografias em formato de ímãs sem preço definido foi o Rafael Lage (diretor do documentário linkado no primeiro parágrafo deste texto), mas quem sugeriu que eu fizesse o mesmo foi o Eduardo Marinho, quando passei um tempo hospedada na sua casa no ano de 2014. A sugestão não fez o menor sentido na época, pois eu não tinha sequer uma câmera ou celular, e ainda estava bastante dedicada em pintar mandalas em vinil e progredir no artesanato em macramê e arame. Então eu nunca pensei em fazer isso, jamais cogitei trabalhar com fotografia, mas meu cérebro deve ter guardado as palavras do Eduardo em algum lugar, pois quando decidi sair de Recife em definitivo, em poucos dias já estava na gráfica imprimindo algumas das poucas fotos razoáveis que eu havia tirado e pegando emprestado, a câmera da minha mãe.


Meu primeiro mangueador de ímãs, já um tantinho detonado pela estrada.

Apesar do nervosismo, fui colocar os ímãs à prova num evento público chamado Feira Criativa, por ocasião do Dia Mundial da Criatividade, na antiga Estação Ferroviária de Caruaru desativada, mas atualmente funcionando como pólo cultural. Ao longo daquela tarde, ao receber o retorno entusiasmado das pessoas diante do meu ambicioso projeto de dar a volta ao mundo iniciando de bicicleta e, consequentemente, também muitas notas de dois reais, fui me enchendo de auto-estima e compreendendo que os ímãs eram apenas um pretexto para que as pessoas conhecessem minha história e se sentissem encorajadas a contribuir para que ela continuasse acontecendo, porque há um valor inestimável no que eu estou fazendo e a maioria do povo é capaz de reconhecer isso. Ao final da mostra de um filme no evento, cheguei a manguear simultaneamente toda a audiência, fazendo um discurso sonhador alimentado pelos sorrisos e olhos arregalados da platéia.


Acredito que a humanidade evoluiria exponencialmente se cada jovem dedicasse ao menos alguns meses ou anos de sua vida para se soltar no mundo, e que toda a sociedade deveria encorajar os passos de todo viajante, graças à Deus não sou a única a pensar assim. Gratidão a todos e todas que agora leem o que eu escrevo após terem me dado licença para interrompê-los na rua, no bar ou na praia e contribuíram financeiramente ou com a participação em minhas redes, vocês são meu combustível para continuar.


Mangueador atual.

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